domingo, 18 de março de 2012

José Guilherme Merquior volta às livrarias. Por: Euler de França Belém

O ensaísta e pensador liberal, que estudou Drummond de Andrade a fundo e debateu, com inteligência, humor e rigor, com Marilena Chauí, Paulo Francis e Caetano Veloso, terá oito livros publicados este ano. 
 

O diplomata e ensaísta José Guilherme Merquior morreu com apenas 49 anos, em 1991, e sua obra, importantíssima, desapareceu do mercado. Alguns livros são disputados nos sebos, notadamente no Estante Virtual, e os preços não são convidativos. Na maioria das vezes, os leitores têm de se contentar com cópias mambembes. No espectro da direita às vezes “misturam” Merquior e o filósofo Olavo de Carvalho. O motivo é o de sempre: o primeiro não era e o segundo não é de esquerda. Merquior era um liberal clássico, dado a polêmicas duras, com, entre outros, Marilena Chauí, Carlos Henrique Escobar, Paulo Francis e Caetano Veloso. Certa vez, concedeu entrevista ao jornalista Bernardo Carvalho, hoje escritor consagrado no país e no exterior, e citou o poeta Metastasio (1698-1782). Saiu “metástase”, na “Folha de S. Paulo”, porque o ensaísta estava com câncer. Ele teve de fazer a correção. Olavo de Carvalho, embora tenha obra filosófica apontada como sólida, é mais militante, combatente e beira o ridículo com sua fama de “astrólogo”. Merquior, embora escrevesse em jornais com frequência, com profundidade e clareza raras no meio acadêmico, era mais reflexivo, menos, digamos assim, “de” direita — tanto que, ao contrário de Olavo de Carvalho, mantinha interlocutores frequentes e empáticos no campo da esquerda, como o filósofo Leandro Konder (Glauber Rocha, que o admirava, pediu-lhe uma bolsa para estudar Oscar Wilde na Inglaterra). Entretanto, embora não fosse um direitista empedernido, sua obra, vinte anos depois de sua morte, praticamente foi retirada dos catálogos das editoras patropis. Um boicote silencioso e poderoso contra uma obra que tem a dizer, aqui e fora do país, pois Merquior analisava com rigor Michel Foucault e Jacques Derrida, antecipando algumas das críticas que são feitas hoje aos filósofos franceses. Agora, graças ao empenho da Editora É Realizações e do professor universitário e crítico literário João Cezar de Castro Rocha, sua vasta obra — 22 livros — voltará às livrarias brasileiras, possibilitando a reabertura do debate, mais maduro e distanciado, das ideias de um intelectual que deve ser chamado mais de filósofo do que de ensaísta (a obra será publicada integralmente até 2014, com a inclusão de “dois volumes adicionais” — um tributo daqueles que conviveram com Merquior e uma biografia do ensaísta-filósofo). Era também um crítico literário refinado, que, a despeito da enorme bibliografia que arrolava, lia de fato os livros examinados, como a poesia de Carlos Drummond de Andrade, e acrescentava suas próprias interpretações. Discordava em geral da bibliografia, desprovincianizando tanto a crítica quanto o objeto examinado.

Não deixa de ser sintomático de uma mania nacional — esconder (ou difamar) aquilo de que discordamos — que a notícia da “volta” de Merquior às livrarias tenha saído com destaque tão-somente no caderno “Sabático”, de “O Estado de S. Paulo”. A reportagem-comentário é de Antonio Gon­çalves Filho, que cita o crítico Eduardo Portella. O ex-ministro da Educação diz que Merquior era “a mais fascinante máquina de pensar do Brasil pós-modernista — irreverente, agudo, sábio”. Não citado pelo “Estadão”, o filósofo e antropólogo Claude Lévi-Strauss ficou impressionado com o volume de leituras do brasileiro, sobretudo porque eram leituras assimiladas, deglutidas e questionadas. Mer­quior, entendeu Lévi-Strauss, não era um papagaio, um repetidor de ideias alheias. Muitos autores chegaram aos leitores brasileiros graças às suas críticas, em geral contundentes e perspicazes. O brasileiro dialogava de igual para igual com Foucault e Derrida, dos quais apontava, de modo implacável, as deficiências e, mesmo, exageros interpretativos.

Críticos brasileiros quase sempre têm um quê de tucanismo. Fazem a crítica e, em seguida, apontam aspectos supostamente positivos — para ficar bem com todo mundo, de escritores a editores. Merquior dizia o que pensava, porque pensava bem e com independência. Se examinasse a obra do filósofo esquerdista Leandro Konder, seu amigo e protegido na ditadura, apontava as insuficiências, mas, honesto, sugeria que tinha algum valor (penso completamente diferente: Konder é dos mais superficiais filósofos brasileiros). No geral, não havia ressalvas positivas. Era pau puro. Ao resenhar um livro fragílimo de Marilena Chauí notou que a filósofa da USP havia copiado trechos inteiros de uma obra do filósofo francês Claude Lefort. Em artigos duros, detalhistas, apontou o problema, mas sem as baixarias típicas do intelectual patropi. No lugar de assumir o plágio, Marilena Chauí, secundada por dois então aliados, Maria Sílvia de Carvalho Franco e Roberto Romano — que, felizmente, deixaram de ser papagaios da esquerda —, partiu para a desqualificação, sugerindo que Merquior era funcionário da ditadura, por ser diplomata e manter ligações com o ministro Leitão de Abreu. Não comprovou, porém, nenhuma ação de Merquior no sentido de fortalecer os traços autoritários da ditadura. Chauí, grande estudiosa da obra do filósofo Espinosa, aderiu à técnica do jornalista Paulo Francis, que dizia que ganhava o debate não o que argumentava melhor, e sim aquele que argumentava com mais charme e virulência. Pega em flagrante, Chauí socorreu-se com o filósofo Lefort, que, também de esquerda, protegeu a discípula. Inventaram uma farsa: o plágio não era plágio — e sim “filiação de pensamento”. Roberto Romano, filósofo respeitável e intelectual íntegro, deve morrer de vergonha por ter dado “cobertura” à trapaça. Merquior era tão decente que, durante o debate de mão única — só ele estava debatendo; os outros apenas atacavam-no, como suposto “esbirro” da ditadura —, não disse, nenhuma vez, que, na ditadura, ajudou a salvar vidas e a tirar pessoas do país. Um dos que foram ajudados é o filósofo marxista Leandro Konder. Curiosamente, ninguém apareceu para defender Mer­qui­or, nem mesmo os intelectuais que conhecem o mandrionismo das esquerdas.

Paulo Francis e Caetano Veloso passaram pelo crivo da pena ácida de Merquior. Francis era um polemista esplêndido e um vulgarizador da cultura notável. Como escritor, pertencia ao time reserva, sua imaginação literária, como não era forte, nutria-se muito mais de ideias e informações. Ele queria se tornar uma espécie de Thomas Mann brasileiro. No máximo, tornou-se um sub-Thomas Mann. Numa polêmica com Francis, Merquior escreveu que, depois dos romances “Cabeça de Papel” e “Cabeça de Negro”, o jornalista certamente escreveria “Cabeça de Vento”. Francis ficou irritadíssimo e o atacou com fúria, para, mais tarde, reconhecer que Merquior era original, corajoso e brilhante. No Brasil exige-se que o artista, como Caetano Veloso, se apresente como intelectual e dê opiniões sobre vários assuntos, quando deveria falar sobre aquilo que sabe fazer — cantar ou compor. Merquior, num tom apelativo, disse que Caetano era um “pseudointelectual de miolo mole”. O baiano, ao lado de Chico Buarque, pelo menos tem certo preparo intelectual, embora não fosse, é claro, páreo para o cultíssimo Merquior.

Entre os que admiravam Merquior estavam Lévi-Strauss, Manuel Bandeira, Carlos Drum­mond de Andrade e o eminente crítico literário Antonio Candido. Sua biblioteca, com livros lidos e anotados, tinha mais de 10 mil volumes. Tinha paixão por Es­pinoza e pela pintura de Poussin. Jú­lia Merquior assinala que o pai tinha um “humor perene”. Ela diz que a luta do filósofo “era contra ver as coisas de uma maneira só”. Antonio Gonçalves escreve que, “visto como um direitista pela esquerda, Merquior se definia como um liberal em economia, social-democrata em política e anarquista em cultura. Ele dizia que no Brasil há uma intelectualidade, mas não uma intelligentsia”.
Livros de Merquior que serão publicados em 2012 no Brasil:
1 — Razão do Poema (1965)
2 — Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin (1969)
3 — Saudades do Carnaval (1972)
4 — Formalismo e Tradição Moderna (1974)
5 — As Ideias e as Formas (1981)
6 — O Elixir do Apocalipse (1983)
7 — De Anchieta a Euclides (1977)
8 — O Fantasma Romântico (1980)

Fonte: Jornal Opção

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