sábado, 28 de abril de 2012

A INVERSÃO MORAL DA REALIDADE


O leitor que hoje em dia não se dedicar a estudar um bom bocado de história, economia, filosofia, geografia, artes e ciências afins, desviando-se, é claro, do ambiente universitário, certamente não entenderá “bulhufas” do que se passa no mundo e tampouco na cena cultural do Brasil.
    Refiro-me aqui a situação cultural de forma bem diversa que comumente tem sido mencionada, sendo rebaixado seu entendimento simplesmente aos fenômenos artísticos de uma sociedade. A nossa, porém, está corrompida moralmente de tal modo, que, as artes, a filosofia, a política e tudo que pudesse erguê-la estão fazendo o papel inverso numa militância larga onde cabe desde o partido político registrado, ao anarquista, desde o artista “excluído” (e por isso se faz dele um herói) até os pertencentes à alta roda da mídia.
    O processo de corrupção dos valores ocidentais deu-se de forma contínua e progressiva a partir de Maquiavel, e até um pouco antes, quando no período medieval a própria igreja católica, assombrada com a perda de terra e poder com o advento da ascensão da burguesia, tentou ela mesma planejar e estruturar o futuro ignorando todos os eventos históricos precedentes. É isso, pois o que mais caracteriza a mentalidade revolucionária, o desprezo pelos dados históricos e tentativa de planejar um futuro maravilhoso esquecendo-se de um princípio que é o fato de o futuro ser contingente. O futuro, apesar de poder ser planejado, por sua própria característica, não pode deixar de ser levado em conta as inúmeras possibilidades de erro e de mudanças, desde as mais sutis até as mais vistosas.
    Deste modo, o revolucionário, ao contrário do que pensam comumente, não começa com o advento do socialismo, mesmo que seja o chamado socialismo utópico. A essência que caracteriza o revolucionário está na perda dos valores da civilização ocidental, do pensamento grego no que se refere a Sócrates, Platão e Aristóteles, na ocultação de gênios da filosofia e da literatura que habilmente o identificaram como Dostoiévski, Albert Camus, Viktor Frankl, Ortega y Gasset, Joseph Conrad, Geovanni Reale, Stendhal, Olavo de Carvalho, M. F. dos Santos, Robert Musil, René Guénon, Aldous Huxley entre outros. A lista poderia estender-se Ad infinitum, mas, ao mesmo tempo pode ser anulada propositadamente, seja pela ocultação de obras essenciais para seu entendimento, ou pelo simples acidente provocado pela falta de discernimento impossibilitando assim a escolha e julgamento certo.
    É com tristeza que vemos, por exemplo, cursos universitários custeados pelo povo, desenvolverem anos de “trabalho” desprezando totalmente a realidade que os cercam e fazendo com que seus alunos freqüentam durante quatro ou cinco anos um teatro que além de os distanciarem da realidade, ainda o inabilitam a entendê-la posteriormente, gerando nos mesmos uma pasta de preconceitos provocados por uma série de manuais inúteis e priorizando autores de terceira ordem. A internet que hoje pode tornar os clássicos acima mencionados facilmente acessíveis, nem de longe pode ser usada com ferramenta a favor, uma vez que nem no imaginário dos alunos a cosmovisão do mundo se passa dentro de uma realidade minimamente aceitável.
   
    O grande José Monir Nasser, autor erudito que ninguém dá a mínima para lê-lo por estas bandas, traçou um chamado “Serpentário de Palavras” que resume de forma exata a mentalidade acadêmica-artística da atualidade. Levados como que um burro por uma cenoura, seguem num galope repetindo num cantochão: Ação afirmativa, apropriação social do saber, assédio moral,     assédio sexual, atitude republicana,   cidadania, combate às desigualdades, consenso, construção do conhecimento, construção social (disto ou daquilo), democracia participativa, direitos humanos, diversidade, dívida social, educação ambiental, educação para a cidadania, elite(s), empresas cidadãs, ética, exclusão social, etc.
    Infelizmente grande parte destes revolucionários (variando aí o grau de engajamento em qualquer causa que seja) não conseguem ter ideia do nascedouro das ideias que seguem e tampouco saber que são comandados desde o túmulo de Maquiavel, Hobbes, Descartes, Marx, Adorno e outros canalhas confundidos como filósofos.
    Defendendo a “igualdade” os “direitos das mulheres” ou qualquer bandeira que a princípio qualquer um seria incapaz de ir contra, vão distanciando-se dos valores morais que fazem do ser humano um ser humano. Sempre com um senso de realidade totalmente deslocado, achando-se em desvantagem em relação a mídia, ao capitalismo ou aos governos, para fazer compensar essa desvantagem começam a ceder em seus valores morais valendo-se no começo de pequenas mentiras, trapaças quase que invisíveis, distorções simples, que aos poucos vão tomando corpo e destruindo todo o edifício ético que o próprio já teve.  É assim que Dostoiévski nos mostra perfeitamente como Raskólnikov aos poucos inverte totalmente o sentido da realidade e, por achar-se, no dizer de hoje, um excluído social, se achou no direito de matar a velha usurária a machadadas. É assim que ao longo da história da humanidade ocorre, para fazer nascerem às flores é necessário sempre correr o sangue? Quantos Raskólnikovs você conhece? Quantos te rodeiam?

2 comentários:

  1. Perfeito. Fiquei querendo mais. Convivemos com este problema diariamente. Precisamos falar muito sobre isso, esgotar. É preponderante para ordenar nossa liberdade ameaçada.
    Parabéns!
    Deus te ilumine!

    J. A.

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    1. Obrigado pelo comentário Ari. Volte sempre.

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