segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Sagração da Primavera



Faz algum tempo terminei de ler o livro “Rites of Spring” do historiador Modris Eksteins. Nele, autor reflete sobre o mundo moderno e o papel preponderante da Primeira Grande Guerra em sua formação. Nos capítulos finais o autor trata do processo cultural que envolveu a gestação, o nascimento e a explosão do nazismo na Alemanha. Um conceito importantíssimo no raciocínio do autor – o qual não pretendo expor aqui, a fim de não roubar a ninguém o prazer de ler por si o volume – é o de estetização da política.


O processo de estetização da política foi marcante, segundo Eksteins, para a formação do ambiente cultural moderno que culminou na aprovação geral do nazismo pelo povo alemão. A estetização, a vida como arte, a busca da beleza, era o grito de revolta de uma geração que rejeitava a história e o peso das instituições tradicionais de uma sociedade considerada burguesa, antiquada e decadente. A busca do novo, da era que estava nascendo diante de seus olhos, tomou formas de culto, tendo em Hitler seu supremo sacerdote. A figura de Hitler, em si bastante contraditória, era adorada a despeito de não representar nada do que pregava. Ele mantinha a imaginação do povo cativa, completamente alienada da realidade circundante, brandindo diante deles uma imagem de um homem novo, um mundo novo, construções de ficção que pela simples força de sua beleza aparente tornaram sua feiúra real algo solenemente ignorado.



Eric Voegelin encontrou contornos distintos nos mesmos eventos. Ele enxergou na ascensão do nazismo um fenômeno religioso, algo que classificava como uma religião política (tese exposta no livro “The Political Religions” e elaborada em “The New Science of Politics”). Os contornos da religião política podem, segundo Voegelin, ser encontrados em diversas sociedades, desde os antigos coptas até os modernistas do século XX. Em sua perspectiva, Voegelin aponta que o fenômeno de construção de uma nova realidade é ligado à idéia de transformar a Terra em um paraíso, o homem em um ser perfeito, e mostra que tal disposição da alma é bem mais antiga do que a nossa modernidade gostaria de supor.



Fiquei a me perguntar: qual seria a perspectiva mais próxima do fenômeno real? A religião política ou a estetização da vida? A religião política parece carregar o peso da história, ao passo que a vida como arte parece querer jogá-la na lata de lixo, ou talvez recriá-la conforme o desejo da imaginação.



A religião política, ligada ao conceito controvertido de gnosticismo proposto por Voegelin para explicar o caso alemão, possui uma longa história, porém não parece carregar, em uma melhor análise, todo seu peso. A atitude religiosa gnóstica – ou revolucionária, como se queira – é ela mesma necessariamente cega para sua própria história, e consiste num salto cego para o futuro. Esse salto cego, realizado por todo aquele que dissipa a razão, a história e a família em prol do desconhecido, é realizado justamente por meio da imaginação. É a imaginação que pinta um quadro atraente do futuro a ser buscado pelo seguidor da religião política. A força das imagens se impõe e, nas mãos de um artista talentoso como Hitler, arrasta a o público para dentro de sua fantasia até a morte.



Gostaria, inclusive, de entender melhor por que razão a morte possuía tamanha atração para os seguidores da suástica. A intensidade da vida potencializada até seu limite dando lugar à morte era uma constante na psique perturbada pelo radical deslocamento da realidade sofrido por aquelas pessoas. A morte, então, possuía uma beleza incomensurável, uma beleza que ainda ecoa na mente de alguns artistas, creio eu.



Além desta incursão por um possível motivo que explique a complementaridade das visões sobre a Segunda Grande Guerra e os momentos que a precederam, fica uma dúvida: até que ponto a complementaridade não seria conseqüência de uma semelhança profunda entre a experiência religiosa e a experiência estética? Seria então a revolta artística um espelho da revolta contra a religião cristã no ocidente, empreendida pela teologia liberal e pela filosofia secular do século XIX? Foi a rejeição de Deus, e a subseqüente perda de sentido por parte de tanta gente nas sociedades ocidentais, que lançou toda uma geração a precisar fazer a escolha vil entre Eros e Tanathos?



Roger Scruton, no volume Modern Philosophy, faz um interessante paralelo entre a religião e a arte, apontando ambas como instâncias em que experiência e sentido estão unidos intimamente. A perda de sentido, portanto, seria um fator que afeta igualmente arte e religião, e ambas, ao deixar órfãos os indivíduos, o deixariam indefeso e entregue à adoração estético-religiosa de uma idéia ou de uma figura política. Francis Schaeffer, um dos mais lúcidos observadores dos eventos mundiais no século XX, avisava que caminhamos para um futuro sombrio, justamente quando o progresso humano parecia mais espetacular, e a vida espiritual genuína, bem como a verdadeira educação, ficavam mais e mais distantes das pessoas. A perda da antítese, nos termos de Schaeffer – que podemos entender como noção de verdade, de absolutos, ou seja, de sentido e referência – é um fenômeno semelhante, com conseqüências semelhantes, ao que foi observado por Eksteins. Seria prudente lembrar, então, das lições da história recente.



Isto nos deixa uma pergunta difícil. Em que medida somos herdeiros daquela geração tão peculiar que provocou e assistiu as dores e o parto da modernidade? Quais são as chances de que, dadas circunstâncias semelhantes, venhamos a repetir suas vidas e o caos extraordinário em que se lançaram?



Observação metodológica:



Falar em perda de sentido como um fenômeno histórico não é dizer que a mudança ocorra nas esferas espirituais transcendentes, inacessíveis aos seres humanos normais e que depois se deposite assim acabada nas cabeças das pessoas concretas. Schaeffer foi um excelente exemplo de visionário que, como Taine, não deixou de buscar traçar a história das idéias que combatia a fim de demonstrar suas origens humanas, atribuindo idéias e mudanças aos indivíduos que as trouxeram à luz. Entendo que o método tenha uma vantagem muito maior do que a simples precisão histórica que possibilita ao estudioso. A busca por idéias pessoais ao invés das impessoais é também uma maneira de tirar delas grande parte de seu poder. Se acredito, como Schaeffer, que o próprio Deus é um Deus pessoal que se revela a mim e a quem mais o busque e reivindique responsabilidade por tudo o que faz e cria, não faria sentido imaginar que forças históricas ou idéias políticas perambulam por aí, incriadas e assustadoras, como divindades, lançando os homens uns contra os outros sem qualquer tipo de filiação. Em tempo, este aviso precioso foi dado pelo professor Olavo de Carvalho e convém, também nesse caso, indicar a procedência.




II



Faz algum tempo que escrevi as linhas acima. Desde então comecei a freqüentar (o termo é inexato, porém servirá para o momento) o Curso Online de Filosofia, aprendi o papel imprescindível da imaginação para nos instalar na realidade. Relendo o que escrevi à luz deste novo aprendizado me apareceu o seguinte problema: como vou entender o apelo à imaginação feito por Hitler ou pelos revolucionários, tão distante da faculdade que nos estabelece na realidade?



Este problema me faz pensar de novo em Schaeffer. O teólogo fala, no começo de sua “Trilogia”, da ruptura da unidade do conhecimento, os “dois andares” nos quais a mente humana se dividiu, incomunicáveis e antagônicos. O primeiro é o da razão pura aplicada aos dados sensíveis (ou a ciência, da maneira como é popularmente entendida). O segundo é o da fé e do conhecimento espiritual que dá sentido e orientação à vida do homem (o elemento espiritual). Ora, quando a imagem completa da realidade é inacessível ao homem, uma vez que este não consegue realizar por si a ponte entre os andares isolados do conhecimento, a imaginação não pode instalar ninguém na realidade de forma integral. A faculdade imaginativa será sempre aplicada a um ou outro domínio sem que o sujeito se dê conta do quadro completo que se desenrola diante dele.



O que teria acontecido então? A primeira idéia que me ocorre (e pode nem ser a mais correta) é que o uso feito da imaginação no caso aqui examinado é feita de forma diversa daquela que nos seria salutar. Diante da incomunicabilidade entre os dois andares em que a mente humana se dividiu (evidente que alguns seres humanos individuais escolhem o primeiro andar e outros seres humanos escolhem o segundo) o homem desesperado por alguma forma de sentido e orientação na vida, deferente do racionalismo difuso e pseudo científico, sente de forma pungente a atração do salto cego de fé rumo a alguma forma de sentido existencial e espiritual. O caso é que essa situação foi explorada com maestria pelo Fürher, que apelou para uma imaginação sem acesso à realidade como um todo a fim de fazer dela um instrumento de expressão do impulso de dominação de destruição, projeto no qual foi seguido por milhares de milhares.


De fato, a grande obra do diabo é fazer caricaturas monstruosas das criações de Deus. Tudo indica que esse caso não foi diferente, a imaginação que deveria estabelecer o homem no real acabou virando meio de afastá-lo do real e lançá-lo num impulso de destruição devastador.

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