terça-feira, 19 de março de 2013

Cariri e etnocentrismo cultural.




            Qualquer pessoa, por mínimo de instrução que tenha, já ouviu falar no conceito de etnocentrismo. Ao se deparar com o mesmo, exemplificarão fartamente como este fenômeno (pois é uma realidade, antes que um mero conceito abstrato) se deu em tempos longínquos na Europa e em outras sociedades.
            O fenômeno em si consiste em tomar nossa própria cultura como à central onde seus valores serão o único meio de análise em relação a qualquer outra. É muito claro que em um ambiente cultural saudável isso provavelmente não aconteceria, ou, se acontecesse, seria fortemente criticada por seus confrades. Alguém pode perguntar quase que ingenuamente: Mas de que forma isso acontece aqui?
            Ora, quem afirmar ter simpatia por algum objeto de estudo, sendo neste caso “cultura”, deveria como é óbvio, providenciar adquiri-la. A questão sobre a cultura normalmente meteria medo em qualquer pessoa sensata uma vez que, ao ouvir hoje em dia nas universidades que não há cultura superior a outra (o que não é bem assim), devia-se ter um panorama cultural o mais largo possível, tendo assim uma tarefa extremamente espinhosa que seria apreender todo o legado da cultura ocidental e oriental e aproveitar o que há de melhor em ambos, sabendo fazer as devidas conexões, correlações e diferenciações para que a realidade se abrisse como um grande horizonte.
            É claro que assim falando, nos parece bem democrático e sensato, porém, captar tamanho tesouro cultural não é tão fácil, uma vez que você se deparará com vários saberes diferentes e ter um método para isso nada mais é do que fazer filosofia no mais alto grau da palavra. Aqui, como em vários outros estados do Nordeste não temos esta visão. A chegada de universidades pelo Nordeste chegou a borrifar uma série de mentirinhas, métodos de chateação que confundem como pesquisa, e o dom de certas pseudo-inconveniências que dão ao questionador um ar vaidoso de cientista destemido que enfrente uma burguesia (cuja qual nunca o incomodou verdadeiramente em nada), uma inquisição (que ele não sabe nem o que foi), uma série de preconceitos (que o mesmo só ouviu falar). É a coragem de surrar espantalhos que ele mesmo construiu.
            Essa pseudo-educação se dá através da repetição de palavras chaves que são o oxigênio do chamado “politicamente correto”. Basta o estudante aprender meia dúzia de palavras que automaticamente será levado a categoria de um pensador como Aristóteles, Platão, etc. Sobre a presente questão, o professor recém-falecido José Monir Nasser nos deixou um texto chamado “Serpentário de Palavras” que mostra de modo didático essa engenharia macabra que ceifa a inteligência de quem quer realmente conhecer a realidade, e não apenas pensá-la com um chip externo que lhe fora implantado. Em nosso contexto cultural, há algo bem mais específico, que só em condições bem especiais produziriam um resultado cultural tão confuso e absurdo.            
            Tais palavras chaves são misturadas a ideia de valorização cultural, que, embora esta última seja necessária, não há de se perder as referências externas e indispensáveis que são usadas como “calibre” ou referência para qualquer processo de desenvolvimento cultural. O que há, é uma troca de boas referências, ou pior, a ocultação proposital das mesmas, para um resultado calculado que é essa mentalidade aqui produzida onde:
·         A cultura popular deve ser valorizada e “resgatada”.
Comento: Embora seja verdade, a cultura popular não consegue abarcar toda a realidade social, econômica, política, artística etc. A cultura popular não produz “leis”, e assim sendo, tenho que adquirir cultura jurídica. A cultura popular não disserta sobre pintura, música ou teatro clássico, e assim sendo, tenho eu que sentar meia dúzia de horas por dia e estudá-los de alguma outra fonte;
·         Deve-se levar a “capital cultural” para as classes menos favorecidas.
Comento: A palavra cultura é abrangente e é expressa por todas as classes sociais de uma sociedade. É claro que sabemos da realidade das condições sociais diferentes, porém, educação e cultura são bens humanos, independentes de questões sociais, e assim sendo, não se produz cultura como se fazem bolos, sob encomenda para um fulano ou beltrano. Independente de classes sociais, cores, religiões etc., deve-se oferecer o que há de melhor (e não de mais conveniente, ou o que o seu partido acha) da cultura mundial. Isso por si fermentará a cultura local, não ameaçando em nada suas singularidades.
·         Deve-se respeitar todas as formas de expressão, de culturas, fazendo-se uso da pluralidade cultural.
Comento: Mentira!  A pluralidade em questão tem de fato feito grande progresso por culturas como afro-descendente, indígena, cultura de rua, grafiteiros, etc. Que tais expressões culturais que até então não tinham seu ingresso reconhecido nos meios culturais sejam agora também contemplados é mais do que justo, porém, cabe indagar se é sensato fazer justiça a A e injustiça a B. E parte de população que gostaria verdadeiramente de adquirir alta cultura, de ter a possibilidade de conhecer sem doutrinação ideológica Sócrates, Platão, Aristóteles, Fídias, Ésquilo, Caravaggio, Rembrandt, Shakespeare, ou, para não ser demasiado universalista e ser visto como antipatriótico, Machado de Assis, Gustavo Corção, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa?

            A questão é que esse desejo por justiça social, ou, cultura para os mais pobres é uma indignação seletiva. Cabe aí até arrumar nomes da cultura internacional desde que seja exclusivamente socialista, ateu, contra família tradicional (agora revoltar-se contra o pai e mãe depois que viveu à custa deles é o mais alto símbolo de cultura) e que, sobretudo seja canonizado pelo professor universitário mais simpático e “descolado” (aquele que sai para beber no final das aulas) de sua universidade. É o que chamo de supremacia da inconsciência. Nesse ambiente cultural, como grandes nomes da cultura ocidental não ventilam, qualquer um que se diga poeta acaba sendo, sem o menor questionamento, sob o pretexto de liberdade artística, ou de expressão. Agora, por liberdade você não pode ter o direito inerente a qualquer ser humano que é escolher o que você acha de melhor para si. O “poeta”, “artista plástico”, “produtor cultural” que é seu vizinho deve ser considerado antes de Homero, Virgílio, Sófocles, ou assim, você estará defendendo uma cultura “dazelite”.
            É claro, que não é prudente colocar toda a produção cultural do Cariri numa vala comum. Embora isso seja predominante, nem todos caem no canto da sereia que é essa “bananada” feita de banda de pífano, Karl Marx, “poesia marginal” e cópias de Chico Buarque. Recentemente li um verdadeiro romance chamado “Levado ao Vento” do Geraldo Anannias Pinheiro que atinge o que chamamos de “Sophia Perennis” que é segundo Ananda Coomaraswamy “a filosofia metafísica é chamada de perene devido a sua eternidade, universalidade e imutabilidade; é o que Agostinho de Hipona denominava Sabedoria incriada, a mesma agora assim como sempre foi e sempre será". Em um estilo cativante o autor mostra em sua obra uma relação estreita entre regionalismo, metafísica, misticismo cristão, geografia regional em uma só cápsula de 508 páginas. Aqui sim, atingimos uma idéia de universalidade sem perder as tão preocupantes raízes.
            Mas aqui fica a pergunta: Até quando vamos viver olhando para nosso próprio umbigo?

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