sexta-feira, 26 de abril de 2013

INANIÇÃO CULTURAL


            A mais de quinze anos, desde que comecei a adentrar no mundo da pintura, sempre ouvi falar na riqueza cultural do Cariri que, em vários aspectos é inegável. Porém, sempre fiquei muito desconfiado quando me falavam da riqueza de artistas das mais variadas formas e, sobretudo intelectuais. Sim, nós temos uma riqueza intelectual.

            Com o passar do tempo me adentrei no ramo da poesia, não como poeta em si, mas como um amador, que em seu uso as palavras, dava-se ao trabalho de escrever algumas coisas. Alguns que me leram apressadamente me chamaram de poeta. Ora, eu que há muito tempo trabalhava com artes visuais não ousava ver-me como artista plástico ou pintor, tendo em mente o peso de grandes nomes da pintura Ocidental como Rembrandt, Caravaggio, Fra Filippo Lippi, Guido Reni, entre tantos outros ídolos que tinha e tenho até hoje.

            A meu ver, o primeiro dever de um artista ou intelectual deve ser seu senso de honestidade, única testemunha que uma consciência saudável desenvolve-se ao longo de sua caminhada. Há uma diferença abismal de gostar de poesias e ser poeta. Mesmo que a modernidade tenha tentado apagar essa fronteira ela é a base fundamental em distinguir algo de qualidade ou não. O mesmo se aplica a todas as formas de expressão humana. Portanto, de chofre, essa suposta riqueza cultural do Cariri não é tão grande como pensamos. Ela tem sido, digamos, inflacionada, fruto de uma manobra propagandística que tem de fato dado alguns lucros a região e atraído alguns turistas.

            Esse hábito de transmutar o amante da poesia em poeta, ou o da música em músico automaticamente, sem exigir do mesmo nada que se refira ao ofício que ele se afirme, tem sido uma sementeira de constrangimentos que se não existem, ainda estão por vir. Pois, como se diz, “só no Crato mesmo” para um daltônico dar palpites sobre artes visuais, pessoas que escrevem precariamente dizer-se poetas, imitadores dizer-se escritores e malucos de toda sorte intelectuais. A pressa em mostrar-se “cidade da cultura” fez do Crato uma cidade que se estrutura em terreno movediço (Mateus 7:24-27 e Lucas 6:46-49) ao virar as costas a quase totalidade da cultura ocidental, resguardando-se em alguns aspectos muito curiosos. E explico!

            Aqui, e no Cariri de um modo geral, a partir dos anos 60, influenciado pela revolução cultural que dava-se em todo mundo, os então adolescentes da época bebiam desse caldo cultural como se ele fosse a única cultura libertadora das amarras do preconceito, do conservadorismo (embora não soubesse o que isso era), da violência etc. E como todas essas mazelas poderiam ser curadas? Pela arte, é claro. Ora, mas ao falar de arte, é meio complicado entrar nela pela porta estreita. É chato estudar, ter dedicação e talento juntos, estruturados em um todo harmônico aonde a mais alta capacidade de expressão venha a ser um fruto desse complexo trabalho. A porta mais larga que facilitaria desse trabalho veio do próprio declínio cultural europeu que fez o favor de dar ao mundo as escolas vanguardistas que, de fato tendo talentos incontestáveis, em sua maior parte foi perdido através de uma misosofia que fora gestada, por sua vez, em filosofia do princípio da modernidade.

            Desde modo, a quem não soubesse pintar, deveria ser aplaudido e reverenciado, pois sua capacidade de expressão estava atestada pelas escolas abstracionistas européias (e sendo assim quem iria contestar?), assim como na poesia, o que quer que venha a ser escrito era comparado a Camões uma vez que o dadaísmo já os tinha libertado “das amarras” de um conceito dito como ultrapassado. O fato é que a velha Europa caíra em um engodo produzido por ela mesma, mas que, porém, tinha um legado cultural imenso, que em tempos de fome, poderia ir ao passado assaltar o depósito cultural fartamente mantido pelo renascimento, barroco, neoclassicismo, etc. Por pior que fosse a situação, havia um passado glorioso onde alguém mais prudente poderia fartar-se.
            Ao que sabemos, nos aqui também temos um passado glorioso, mas imensamente menor do que foi produzido lá. Assim, em tempos que éramos para produzir algo nosso, exigindo de nós mesmos a maior qualidade possível, foi feito o inverso. Como em uma reunião de confrades, uma parte (e não todos) da cena intelectual do Cariri tomou como cultura o hábito de beber como o Jimi Hendrix, e não tocar como ele, farrar como o Vinicius de Morais, e não escrever como tal. É claro, que, pela própria riqueza cultural da região, nem todos entornaram seu talento pelo ralo, porém, a sementeira foi plantada. Continuamos a guiar a nau não mais pelos ventos das revoluções culturais dos anos 60, mas pelo que ela produziu.

            As leis, os costumes, a estrutura própria da cultura ocidental foi virada pelo avesso de tal modo que, que não a conheça em sua profundidade não pode crer que algo assim tenha existido. Não há um mau artista que quando contestado não fale em acionar seus direitos. A arte, que em cinco mil anos foi produto de discussão, agora chegou num pântano silencioso e ditatorial, onde nada do que é produzido pode ser contestado, sem que quem o faça seja taxado de preconceituoso, homofóbico, fascista, reacionário, etc. O efeito foi e está sendo devastador. O raciocínio chega às ciências produzindo as aberrações que um ferreiro medieval não suportaria ouvir.

            Aqui, o passado que não fora gestado pela cultura popular passou a ser não só ignorado como odiado. Dar notícias de uma genialidade que não esteja nos moldes caririenses era uma afronta vista como tentativa de neocolonialiamo. Engraçado que, ouvir Hendrix, ver Picasso, ou ler Sartre não é, mas ouvir Bach, ver Da Vince, ou ler Santo Agostinho é até hoje uma heresia por estas bandas. A cultura aqui é, portanto, seletiva. Vive-se culturalmente nos moldes dos anos sessenta, com algumas “atualizações”. Para ser respeitado pelos confrades o sujeito terá que passar por uma espécie de batismo, não muito claro, mas que é feito em várias oportunidades, onde você é “avaliado” em suas “ideologias” (e ai de quem não tenha uma!).
            Deste modo, a terra dos ciclopes passa a fazer moda, a ditar regras, a produzir culturais. A ditadura do reisado se fez imperar e, como diz Arnaldo Cézar Coelho: A regra é clara! Quem não estiver nos moldes pré-estabelecidos não entra na “tchurma”, não ganha tapinha nas costas, não come do meu coquetel na minha exposição, no lançamento do livro, no bate cabeça do show. Contra a ditadura da globalização, contra a Rede Globo (é claro, a culpa sempre é da Globo), contra o capitalismo a cultura do cariri tenta globalizar suas idéias, faz uso da imprensa sempre que pode, e compra e negocia o que acha lucrativo.

            Ao longo de alguns anos que escrevo para o blog do Crato, assim como escrevi para outros, venho tentando fazer discutir mesmo que timidamente tais questões. A cultura que é uníssona não pode dizer-se rica. A pluralidade aqui é vista em tons de vermelho, avaliando o quanto você é engajado, bicho-grilo ou, como está na moda, tem consciência social. Há quem veja nessa pluralidade que é samba de uma nota só grande coisa.  Vejo que poderia ter sido, e ainda pode ser, mas não seguindo moldes A, B ou C. Ou o Cariri aprende a andar com suas próprias pernas ou vai ser um paraplégico orgulhoso como do filme “Todo Mundo em Pânico”, onde um paraplégico a ser interrogado se gostaria de ajuda para subir as escadas, ele recusa dizendo que não. Que não é coitado e pode andar perfeitamente. A cena é ridícula, fazendo com que telespectador veja-o arrastando-se com sua cadeira de rodas pelas escadas, levado tão só pelo seu próprio orgulho. 

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