terça-feira, 25 de junho de 2013

Entre o filósofo e o sofista.

“É hora, de uma vez por todas, de dizer basta a esses erros, e lutar por um mundo melhor, mas um mundo construído por nossas mãos e pela nossa inteligência, por todos nós, responsáveis de tudo quanto acontece, e não apenas por alguns iluminados, que se julgam os porta-vozes da divindade, super-homens que nada mais são que super-pigmeus, cuja única grandeza é a sombra imensa, que projetam nos entardeceres humanos”.
Mário Ferreira dos Santos


            Há tempos que estou para escrever um texto que faça justiça a um dos maiores homens que este país já teve e que por uma série de fatores está excluído de todos os debates, escolas, universidades jogado talvez a um limbo que possamos primariamente imaginar, mas que, porém, certamente ele está bem melhor do que nós, pois, que tem um grau extremo de sabedoria certamente tem um coração quieto e conforto estando acima dos holofotes da vaidade.
            Para quem não sabe o Brasil (sabe Deus por que o Brasil) teve a sorte de ter entre os seus, um dos maiores, se não o maior filósofo do século XX. Mário Ferreira dos Santos, advogado por formação, filósofo por DNA, foi o maior contribuinte da cultura brasileira e um dos mais importantes do mundo com sua vasta obras filosófica que tem caso não me engano, oitenta e cinco livros publicados e outros tantos inéditos.  A obra do Mário destaca-se não só por sua erudição extrema de toda a história da filosofia, da educação, da sociologia, artes, economia, bem como por sua capacidade de dar a esse conjunto de fatos e ideia uma filosofia própria, singular, sendo a mesma um projeto intelectual de dimensões faraônicas chamado por ele de Filosofia Concreta.
            Não cabe no presente artigo demonstrar o que ela seja, uma vez que se assim fosse fatalmente teria que me estender sobre o assunto e este não é o objetivo, mas, tão somente despertar a curiosidade de alguém que ainda não venha a conhecê-lo. Mário começou a lecionar para grupos particulares fechados, geralmente em pequenos grupos de alunos, quando, na medida que desenvolvia seus estudos passa a perceber uma série de erros filosóficos e lacunas históricas em obras dos principais pensadores da modernidade ocidental. A partir de 1947 passa a dedicar-se exclusivamente a filosofia e a partir de 1950 no meio de uma palestra, ele a interrompe e diz: - “Desculpem-me, mas não posso continuar. Tive uma ideia”. Saiu do recinto às pressas e como que atingindo por um golpe concebe um plano filosófico que seria publicado por ele próprio contendo mais de 50 livros e que o ocupou pelos próximos 20 anos. A ideia geral seria conceber uma filosofia que se destinasse ao que sempre foi à filosofia clássica que era a emancipação do homem através do conhecimento. Este conhecimento é evidente estaria necessariamente ligado a questões metafísicas e a uma concepção rigorosa do conceito de Deus.
            As obras seguiram sendo publicadas em uma velocidade imaginável para tal rigor filosófico. Velocidade esta que prejudicou em vários volumes os livros que eram mal editados e pouco convidativos. Independente disso seu conteúdo era invariavelmente brilhante. Muita gente pode inocentemente indagar por qual motivo um homem de tal capacitado pode não ser notado pelo cenário intelectual da época. Ao contextualizarmos veremos que o surgimento da USP, bem como as demais universidades que apareceram no país na época, eram, como são até hoje, de uma inépcia intelectual indizível. O que tínhamos geralmente era tão somente uma reverberação de filosofia que surgiam na Europa e que no mais das vezes, eram falsas e inconcebíveis filosoficamente, se não do começo ao fim, mas pelo menos em grande parte. É curioso como pode uma universidade abrir um curso de filosofia sem filósofos estarem dentro dela. O que tínhamos então no contexto da época como até hoje era um curso de história da filosofia, onde grande parte dos filósofos cristãos, conservadores e clássicos não eram estudos (claro, pois não estavam na moda européia) de um lado, e do outro um dos maiores filósofos do século XX, produzindo uma obra monumental e totalmente ignorada do público.
As obras Teses da Existência e da Inexistência de Deus - com pseudônimo de Charles Duclos. Editora e Distribuidora Sagitário, 1946; Filosofia e Cosmovisão. Editora Logos, 1954; Teoria do Conhecimento. Editora Logos, 1954; Análise Dialética do Marxismo. Editora Logos, 1954; Filosofia da Crise. Editora Logos, 1955; O Homem perante o Infinito (Teologia). Editora Logos, 1955; Aristóteles e as Mutações. Editora Logos, 1955; Noologia Geral. Editora Logos, 1956 e o seu clássico Filosofia Concreta (3 volumes). Editora Logos, 1956, não deixou circular impunemente nenhum deslize filosófico cometido desde o surgimento da filosofia até os dias que as obras foram escritos. Caberia então perguntar: acham ainda as obras do Mário seriam bem recebidas em um ambiente acadêmico que invariavelmente reverberava toda sorte de obras e filósofos sem nenhum senso crítico mais rigoroso? É óbvio que não. A obra do Mário foi sendo assim posta de escanteio.
Vale ressaltar que o Mário foi o primeiro empreendedor de venda de livros porta em porta, de modo que o mesmo era quem era filósofo, editor e vendedor. Fica claro a humildade de um dos maiores filósofos do mundo andar pelas ruas de uma cidade batendo de porta em porta oferecendo e negociando a obra filosófica que ninguém jamais escreveu neste país.
Atualmente, quando homens como Paulo Freire são colocados como patrono da educação, uma vez que sua concepção filosófica marxista já tinha sido refutada desde o surgimento da escola austríaca de economia, acho curioso como um educador no sentido pleno da palavra pode simplesmente ignorar o levantamento histórico de uma concepção filosófica, científica ou ideológica seja ela qual for. Como a educação pode ser automaticamente violada em suas concepções mais altas e rigorosas e ser tomada tão somente como um panfleto ideológico sem que ninguém jamais pergunte? A este respeito cabe uma frase do filósofo: “O homem é um fim e não um meio. Utilizá-lo, transformá-lo em peça de um mecanismo, é ofender a sua dignidade” que deixaria o demagogo Freire deslocado, uma vez que sua concepção de educação não aspirava ao entendimento do real em direção ao divino, como sempre foi a boa educação clássica, mas tão somente uma necessidade de emancipação econômica das classes sociais mais baixas, uma vez que, estando bem financeiramente concluímos que haveria resolvido todos seus problemas educacionais.
O que sabemos é que nenhum curso da área de ciências humanas tem o Mário dentro de sua grade curricular. Talvez o maior filósofo do século XX não esteja a altura da universidade brasileira, talvez esta simplesmente não o compreenda, ou pior, uma vez compreendendo-o, talvez simplesmente não o suporte.
Para encerrar nada melhor do que as próprias palavras do Mário:
“A grandeza do homem está em superar as condições que lhe são adversas. Quando, pela sua mente, munido apenas do pensamento, penetra no que há de mais profundo, invade o que se lhe oculta aos olhos, e consegue descobrir os nexos das causas remotas e da causa primeira de todas as coisas, descobre ele que há uma fonte de todas as coisas que, pela sua eminência e pelo seu imenso valor, ele respeita e ama. Só quando o homem consegue elevar-se acima da sua contingência e alcançar esse ser supremo, e humildemente lhe presta a homenagem que ele merece, então o homem consegue ultrapassar os seus próprios limites, porque no mesmo instante em que os vence, ele supera a si mesmo”.


Antonio Sávio Nunes de Queiroz. 

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