segunda-feira, 22 de julho de 2013

Educação no mundo dos ciclopes



          Desde quando o senhor Paulo Freire foi nomeado como patrono da educação brasileira pode-se dizer que assinamos nosso próprio atestado de óbito. Se o documento em si não expressa uma morte completa, é, pelo menos uma morte cerebral, que no final das contas é a pior possível.

            Tão logo uma sociedade perde o sentido histórico dos fatos mais importantes da humanidade, que, resultando desta primeira perca, perde-se em seguida a capacidade comparativa de discernir entre o prioritário e fortuito, entre o basilar e o ocasional seu presente resultará em um processo feroz de decomposição de suas bases culturais mais importantes que são o sustentáculo para toda e qualquer sociedade saudável. Sem um sentido histórico que lhe dê um guia para saber-se onde a humanidade avançou e onde retroagiu qualquer ação política pode se passar como quintessência da inteligência humana sem ao menos saber que o que se fez foi na maioria das vezes tão só uma repetição cômica do que tinha sido feito em outros tempos brilhantemente.

            Em diversos países, como nenhuma sociedade é perfeita, observa-se o mesmo problema afetando um ou dois aspectos sociais, variando sua gravidade, mas de modo que embora haja este sentido corruptor em alguma instância, as outras, demonstram vigor suficiente para não deixar vacilar todo o edifício social. Assim, quando vemos que alguns países europeus entram em uma derrocada no que seria o sentido das artes, e que estas são a base para composição do imaginário social, o aspecto religioso e educacional, embora também já bastante distorcidos, ainda são pilares que dão sustentabilidade e coesão social servindo de catalisadores neste processo.

            Em nosso país, onde uma visão sistêmica do mesmo só pode ser vista a partir de uma perspectiva econômica, e tão logo, apressadamente taxada de capitalista, faz como que a maioria dos nossos pensadores, analistas, ou educadores, captem tão só parte do processo, e, imaginam poder curar um câncer que eclode na superfície da pele tão só como pó de arroz, trocando assim a possibilidade de cura em um sentido pleno, atendo-se tão só a uma questão estética e superficial. Assim, quando vemos a maioria dos educadores brasileiros queixando-se das mazelas da educação, é na melhor das hipóteses um fingimento cínico de quem sequer teve a preocupação de educar a si mesmo, não poderia na mais remota possibilidade, preocupar-se sinceramente com a educação dos outros. No mais, o sentimento que nossos educadores expressam sem sabê-lo, devido à própria falta de educação, é de constrangimento e não de verdadeira preocupação com a causa da educação. Prova disso é que nos milhares de eventos, seminários, artigos, palestras, não se menciona uma só palavra para com a possibilidade de uma educação fora do sentido político-ideológico, que é a visão mais estreita, suja, e vil que se possa fazer dela.

            Quando um educador, sem este sentido histórico que fiz menção no começo do artigo, troca o senhor Paulo Freire por um Mortimer Adler, quando conhece Cipriano Luckesi e não sabe a diferença entre Sócrates e Platão, entre Caravaggio e Rembrandt ou é capaz de identificar uma só diferença entre o teatro clássico e moderno, é porque evidentemente o sujeito não tem a menor ideia do que seja educação, mas pulando todas as etapas necessárias desta, que fazer-se um “sujeito emancipado socialmente” através de uma “pedagogia cidadã”. Esta por sua vez, consiste em ocultar tudo que seja possível dentro do cânon ocidental que compõem os pressupostos de toda e qualquer educação, a pretexto de que os conteúdos aí expressos sob o mais alto rigor estético, político ou filosófico são produtos da burguesia onde os mesmos perverteriam a alma nobre das classes sociais mais baixas. Em 1980 Christopher Lasch em sua obra O Complexo de Narciso alertava:

A educação em massa, que prometia democratizar a cultura, antes restringida as classes sociais privilegiadas, acabou por embrutecer os próprios privilegiados. A sociedade moderna, que tem tido um nível de educação formal sem precedentes, também tem dado lugar a novas formas de ignorância. As pessoas tem cada vez mais dificuldade de manejar sua língua com desenvoltura e precisão, recordar os ecos fundamentais da história de seu país, realizar deduções lógicas ou compreender textos escritos que não são rudimentares. (Christopher Lasch: Le Complexe de Narcisse, Paris: R. Laffont, 1980, p 177 e 178).

            Enquanto isso, na terra dos ciclopes a educação tida como crítica e libertadora, que supostamente libertaria as pessoas do capitalismo, da educação das elites, passou a ser um grande negócio. O Estado enquanto tal, insuficiente em promover a tal educação de qualidade, recorre a uma série de empresas que, ao serem abertas já tem um mercado garantido. Ora, mas que empresas, estamos aqui a falar de escolas? Não. As empresas, que boa parte são tidas como Institutos sem fins lucrativos, assim como ONG’s, OCIP’s e na parte cultural atuam como Pontos de Cultura, coletivos, etc. Têm aí uma gorda parcela do capital, cujas quais não abrem mão de um só centavo. Tais empresas e outras instituições, cada uma atuando até onde seu espaço jurídico lhes permitam, prestam serviço aos estados e municípios com a venda de livros didáticos, merenda escolar, capacitações, sendo que primam que todas possam ser da pior qualidade imaginável. Aí reverbera como de praxe, em alto e bom som, a repetitiva ladainha da pedagogia do oprimido, da autonomia etc.

            Ora, quem em sã consciência ao observar que os educadores são em si exemplos mais notáveis de corrupção, displicência e hipocrisia, elementos estes dissociados de qualquer educação minimamente saudável, poderia acreditar que o país avança? Quem poderia achar que estamos no caminho certo quando nenhum educador atuante em sala de aula teve a preocupação de entender o básico de Platão, Sócrates, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Hugo de São Vitor, Adler, ou Christopher Lasch, Charles L. Glenn, Guillermo Jaim Etcheverry, Benigno Blanco, Fernando de Haro, só para citar alguns. Não, a educação do mundo está totalmente errada e nós, que comumente criticamos o eurocentrismo, acabamos por inventar o brasiliocentrismo, de modo que nossa educação é quem é exemplar, podendo assim, por méritos evidentes, ignorar o resto do mundo e da história e exemplificar nossos méritos. Vejamos então uma parte deles: A secretaria de educação do estado do Rio de Janeiro promoveu um concurso para os alunos chamado “E aí comeu?” onde estes, teriam que mostrar sua sapiência através de cantadas. Isso mesmo. Porém, para fazer uso as farta lógica lecionada nas mesmas escolas, o tal concurso de cantadas, inspirada no filme de mesmo nome do projeto, teria por objetivo minimizar o número de adolescentes grávidas, uma vez que com o aumento do número destas, refletiria em corte de parte de salários ou gratificações (não sei exatamente) dos professores. O ministério da saúde, por sua vez lança a campanha “Sou prostituta mas sou feliz”, o da cultura (sic) celebra agora o chamado Memorial do Funk que custou R$ 4,6 milhões, que segundo o porta voz do ministério “o memorial tem objetivo de divulgar e promover a cultura da periferia, vítima de tanto preconceito Brasil a fora”.

            O ministério da cultura mereceria em si, ser tratado por uma tese bem mais profunda, o que não é o objetivo do artigo em questão, mas este é o mesmo que em 2008 promoveu viagens a Europa para outras funkeiras como Tati Quebra Barraco, talvez pela necessidade desta de entrar em contato com o barroco em suas circunferências em direção ao ápice da genialidade humana. Não precisa dizer que o ministro em questão era o nobre Gilberto Gil. Achar então um educador em sala de aula que pense na educação do país fora da camisa-de-força freire-marxista é procurar cabelo em ovo.

A cosmovisão está totalmente corrompida de modo que levaríamos caso, fechássemos todas as faculdades de pedagogia, ciência e letras, e recomeçássemos do zero, três ou quatro gerações para minimizar o atual estrago. Ora, quem que um senso de realidade apurado pode achar que o Brasil melhorará seus parâmetros educacionais estando sua educação amarradas apenas a propaganda ideológica? O melhor objetivo que teremos em pouco tempo é ficar como meta tolerada os atuais sessenta mil homicídios por ano, e quando passarmos disso, surgirá algum programa do governo dizendo: - “Não suportamos mais do que isso! Sessenta mil homicídios por ano é nobre. Funkeiras com viagens pagas para Europa faz sentido, mas mais mortes do que sessenta mil não”. Aliás, vale relembrar homenagem de ordem ao “mérito cultural” da classe “grã-cruz” para Hebe Camargo, ou da classe “comendador”, que em 2012 homenageou Fafá de Belém, Alceu Valença, Bloco Afro Olodum e o Movimento Gay de Minas, é nada mais do que um reconhecimento merecido a estes que de fato vem contribuindo notavelmente para a cultura brasileira.

A educação aqui que toma um sentido meramente estético, e para variar, uma estética não duvidosa, mas certamente ignóbil e asquerosa, será o parâmetro para infinitas gerações, que, achando como problema principal de suas vidas uma forte cefaléia, optarão como remetido um tiro não só em suas próprias cabeças, o que me pareceria bastante justo, já que a cada um caba a responsabilidade de fazer dela o que bem queira, mas, o agravante irreparável de usar o método como receita para outros, onde aí, toma a sandice um aspecto político grave e por vezes irreversível. Para finalizar fiquemos com o melhor que a poesia de T.S. Eliot teria para nos descrever:

Os homens ocos

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular.

III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.
(tradução: Ivan Junqueira)

Antonio Sávio Nunes de Queiroz.