segunda-feira, 26 de agosto de 2013

DE QUE É FEITO O IMAGINÁRIO CEARENSE?


Os hábitos que delineiam e caracterizam uma sociedade são dinâmicos e obedecem a um compasso singular de acordo com o andamento de fatos históricos bem como é feita a estruturação cultural de um povo. Nas sociedades antigas, essa “liga” que dava coesão social e diferenciava uma sociedade ou civilização era claramente formada por um bojo moral que em geral era dado pelas suas respectivas religiões.
As leis bem como a literatura eram subprodutos das leis religiosas que estão implícitas em todas as relações sociais e que formavam o que chamamos de “imaginário social”. Não há uma sociedade sem que este imaginário deixe de existir, podendo ele variar de hábitos mais ou menos saudáveis ou não. Destaco aqui a importância que as artes de um modo geral, e, sobretudo a literatura têm tido para demarcar estas regras que ao longo do tempo fixam-se na sociedade de modo que passam a ser os parâmetros seguidos ao longo das gerações. É evidente, como já foi dito que mesmo as sociedades mais tradicionais têm em seu corpo social uma dinâmica que não chega a ser imutável, embora muitas civilizações antigas nos impressionem, como no caso da Mesopotâmia e do Egito, por sua aparente imutabilidade.
Na Grécia antiga, as obras de Homero foram durante muito tempo o padrão de heroísmo, ética e coragem a serem seguidos, passando muitos séculos depois pelo questionamento filosófico de modo que o conjunto de leis e regras morais ali contidos pudessem ser depurados e melhorados, porém, não deixando assim de ser ainda uma notável referência. Ao longo do tempo a produção teatral passa ser um dos meios pedagógicos mais importantes para a composição do imaginário grego antigo de modo que a forte impressão das cenas eram os meios mais realistas de forjar situações que porventura surgiriam ao longo das vidas das pessoas que compunham o público.
Ao sairmos de uma viagem temporal tão distante e nos aportarmos atualmente no Ceará, agosto de 2013, refletimos o que tem sido a composição do imaginário cearense dos últimos anos. É ainda quase certo que para o restante do país, o Ceará é terra distante, seca, árida e a composição geográfica de algum modo ainda impera sobre a personalidade de seu povo que pode ser visto de modo dúbio: sendo um sertanejo de coragem, um impávido colosso entre os cactos ou aquele desprovido de tudo, ignorante, e não tendo nenhuma ação sobre a realidade que o circunda. A realidade é que o Estado não tem mais esse cenário tão atrasado economicamente sendo um dos que mais cresceram economicamente no último ano. Porém, indaga-se se o crescimento educacional e cultural da média cearense vem acompanhando o seu crescimento econômico e é aí onde voltamos a estancar.
O cenário educativo e cultural do Estado não é nada animador. A tradição de escritores e notáveis intelectuais que atuaram nas áreas de literatura, crítica literária, jornalismo e filosofia perdeu-se ao longo dos anos sendo apenas uma peça de museu que, ao contrário de sua função, que seria dar aporte e referência intelectual para a formação educacional de seu povo passa a ser apenas uma curiosidade turística, onde se argumenta algum valor histórico em seu favor, mas que nenhuma ação prática é capaz de comprová-lo. Nomes como Álvaro Bomílcar da Cunha, Celso Gomes de Matos, Clóvis Beviláqua, Hélio Melo, Raimundo de Oliveira Borges entre tantos outros ainda são para muitos apenas nome de ruas que não tem o menor sentido na realidade de suas vidas. As Secretarias de Cultura invariavelmente tem um desprezo enorme pela ação cultural como fonte real de estudos capazes de despertarem um papel fundamental nas sociedades que as rodeiam. Se os nomes de seus conterrâneos são solenemente desprezados, a não ser que por, como diria Aristóteles, algum estudante desavisado tope com eles por mero acidente, jamais passará por suas (e nossas talvez por isso mesmo) a ideia de uma formação cultural mais ampla, obedecendo aos rigores de uma educação eficiente que só pode ser forjada a muito custo sem evitar os anos necessários para adquirir o que chamamos de alta cultura.
O conceito em questão, que de fato nunca esteve dentro do imaginário cearense, está sendo definitivamente afastado até das mais remotas possibilidades uma vez que as políticas culturais focam em uma atitude de esquivar-se do peso que os autores acima citados bem como uma série de outros objetivando pelo conceito da moda que é o apoio exclusivo a cultura popular. Esta, que de fato foi vítima de preconceitos acadêmicos por algum tempo, agora, em nenhuma hipótese pode deixar de ser mimada até a enésima geração. Assim, de terreirada em terreirada, de dança do coco em dança do coco, vai se excluindo pacificamente ao longo dos anos notáveis escritores, pensadores e filósofos. Ao trocar um por outro, o cenário acadêmico que de algum modo precisa de pensadores, escritores e filósofos, vai, pacificamente mais uma vez os substituindo por uma onda de ideólogos e pseudo-intelectuais, que agora fazem o perfil do imaginário cearense. Ora, em uma base educacional onde tudo é relativo, as regras entre certo e errado, bom ou mal passam a serem vistas como imagens hipotéticas extremamente distantes, não era de se estranhar que uma nova geração viesse requerer seu status de artista e assim surgiu o que temos atualmente.
Não falo aqui do relativismo cultural, da paranoia pseudo-filosófica marxista das faculdades, nem da fixação antiamericana que o atual cearense letrado tem aprendido em suas universidades, mas sim do cenário musical quase que totalmente degradado que tem feito um estrago talvez irreversível. A ideia moral agora é desenvolvida por bandas de forró, onde músicos ainda honrados fazem questão de dissociar-se das mesmas, requerendo um olhar mais meticuloso sobre suas singularidades, o que de fato é bastante justo. Anualmente o Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga vem sendo um diferencial neste cenário. As obras teatrais por sua vez não desenvolvem a mesma qualidade. Aliás, algo bastante curioso é que as obras de teatro de um modo geral não podem ser julgadas, bastante ser “teatro” para ter sua qualidade garantida. Assim, muitas delas (não todas, é claro) tem tido a mesma função das tais bandas de forró, embora não confessem, é óbvio.
           A Mostra Sesc Cariri das Artes, que já contam inúmeras edições vem segundo a mesma corrente das artes no Brasil como um todo. A ideia não é mais um pano de fundo que reflita os problemas do país como violência, degradação moral, relativismo, etc. Mas sim dar apoio de modo consciente ou não a todos os vícios e pecados, uma vez que o mundo das artes é feito de gente de cabeça aberta, embora nem sempre seja exigido que haja algum conteúdo proveitoso dentro da mesma. Logo, a única fonte moral viva dentro da sociedade cearense serão os sertanejos mais velhos, isolados em paragens nada amigáveis, que resistindo bravamente e ignorando tudo ao seu redor ainda serão a fonte que algum escritor menos tolo recorra a estudá-lo com a atenção que merece. Espero que o tal escritor seja de fato um artista no mais alto nível da palavra, onde a realidade seja sua testemunha e não apenas mais um ideólogo sedento por editais.


Antonio Sávio Nunes de Queiroz.