quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O Culto e a Cultura

1. Os «Conferencistas do Casino» e a República Positivista

Nas bibliografias dos vários doutores, sábios e santos que, no decurso de dois milénios, se vieram sucedendo na Igreja, ressalta ao leitor atento e paciente a constante preocupação e a permanente ocupação dos pensadores católicos de maior celebridade, fama e santidade. Efectivamente, na resolução dos problemas, na descoberta dos segredos e na meditação dos mistérios, em suma na actividade da razão, decorreu a vida nem sempre pacifica dos homens que, com maior entendimento e responsabilidade viveram a doutrina católica tradicional.

Quem, reflexionando sobre esta constância, não duvidar da incontestável fé dos santos doutores, perguntará surpreendido qual o motivo de tanto esforço humano. Pois quê: não é então verdade que, se o homem cumpre á risca todos os preceitos e ditames da Igreja será, ao fim e ao cabo, digno de merecer a salvação? Para quê, portanto, estes sábios doutores que depois foram santos, dedicam a sua vida a profundos, laboriosos e pacientes estudos na tentativa de conciliar a sua razão com a fé? Porquê, firmar numa filosofia uma apologética que articulasse o culto católico com a cultura do seu tempo?

Correram os vários séculos, variaram os homens, as filosofias e, com elas, os sistemas de apologia que permitiam a relação dinâmica da cultura com o culto. A patrística, cujo máximo representante foi Santo Agostinho e que dominou a primeira metade da Idade-Média, sucede a filosofia escolástica com Santo Anselmo e São Tomás de Aquino, na qual se firmaram as formas apologéticas dominantes até ao período conhecido sob o nome de iluminismo. Esta escola filosófica, que atinge a culminância com Hegel, reage ao problema das relações da Razão com a Fé tal como fora proposto pela escolástica. Atribuindo à Razão a infinita possibilidade do conhecimento humano, pode dizer-se que o Iluminismo, porque não acata e respeita o modo escolástico de tais relações, se opõe, por isso, à filosofia que cronológicamente o antecede.

Nos meados do século passado, surge em França o positivismo. Este movimento cultural, contraditório do pensamento iluminista, pode bem classificar-se como uma nova escolástica, mas sem Fé, e assim se explica que já alguém, entre nós, o definisse como o culto da ignorância. Com efeito, avaliados hoje os seus resultados não oferece dúvidas que o positivismo, se bem que pretendesse fomentar a indústria, a técnica e a respectiva ciência, tem por fim estabelecer a ignorância nos domínios da religião, da arte e da filosofia, fim este que decorre necessáriamente da formulação da lei dos três estados.

Cerca de 1870, penetrou no nosso país, importado não de França mas do Brasil, conforme foi notificado pelo escritor Paulo Filho em artigos no «Diário de Notícias». Também a segunda edição publicada em 1857 na cidade de Pertrópolis, da obra já clássica de João Camilo de Oliveira Torres e intitulada «O Positivismo no Brasil» esclarece este segredo da nossa cultura . Foi naquele ano que um grupo de escritores – os «Conferencistas do Casino» - começou a preparar o nosso povo para a República Positivista.

2. A organizaçao da ignorância pública

Pode datar-se o começo da ignorância pública com o início da campanha contra o analfabetismo, para o que os positivistas se propunham instituir, em todas as freguesias das nossas principais cidades, os centros republicanos de instrução e recreio. Interessava isto de sobremaneira à grande imprensa pois assim vendia maior número de exemplares de jornais; acrescentemos que tornava indispensável facilitar a ascensão do operariado ao plano das classes dirigentes, pelo que datam desta época as primeiras escolas-oficinas percursoras das actuais escolas técnicas. Assim se preparou a implantação de um regime cuja consequência foi a separação da Igreja e do Estado, o que veio alterar profundamente o problema apologético em Portugal.

O que melhor caracteriza o positivismo não é a profissão de ateísmo; antes é a negação do sobrenatural, pelo que nunca a Igreja pode aceitar esta corrente de cultura sem pôr em perigo a própria doutrina, pois, como já alguém o definiu, constitui um «catolicismo sem cristianismo», ou melhor, um catolicismo sem sobrenatural. E, efectivamente, separada a Igreja do Estado, logo houve a consequência imediata da divisão do ensino em laico e religioso, seguido, posteriormente, como seria de esperar, pela votação ao exílio deste, no sistema educacional do país. Na sua atitude perante estes acontecimentos, deveria o clero português exercer acção eficaz na educação dos indivíduos de ambos os sexos, desde que a fundamentasse numa hermenêutica dos sacramentos, evidenciando a relação entre estes, a biologia e a filologia. 

Não procedeu, porém, assim; aceitando o sistema de ensino positivista, procurou e conseguiu insinuar-se lentamente nele, sem visionar o perigo em que se colocavam os fiéis pelo contacto constante com um modo de agir, sentir e pensar que parte da negação do sobrenatural.

A instituição de uma cadeira de Moral e Ensino Religioso ao lado de um longo curso liceal de sete anos, em que todas as diversas disicplinas obedecem à orientação positivista, é insuficiente e irrisória, mesmo que para o cargo fosse escolhido um sacerdote devidamente qualificado. 

~3. Positivismo e religião

Penetrara, porém, o ensino positivo nos nossos seminários, motivo porque os sacramentos se apresentavam ao nosso clero mais como factos ou feitos do que assumiam o seu vero e nobre significado de milagres ou mistérios; a sua prática foi descendo e degradando-se a ponto de que hoje se considera esta mais como uma técnica de construção das almas sãs e de destruição das insanáveis do que como um ricto propiciante ao inesperado e ao maravilhoso – a Graça. Além disso, não adequa o clero o culto católico às exigências dos fiéis e, assim, basta olhar para ver, a exemplo o diremos, aquilo que em Portugal se passa em relação ao matrimónio: a Igreja insiste, e com razão, em mostrar as péssimas consequências para a educação dos filhos que resultam da separação dos pais pelo divórcio; mas o nosso clero desinteressa-se e descura os outros modos de separação forçada, por motivos profissionais e económicos, suscitados pela deficiente legislação do Estado; como se desinteressa ainda, da morte prematura de um dos cônjugues, por doenças ou causas de doenças. A voz do nosso clero não tem sido corajosa nem altissonante na explicação e divulgação dos princípios expostos na encíclica «Casti Connubi» de Pio XI.

Implantada a República Positivista, efectuada a separação da Igreja e do Estado, cumpria pois ao clero determinar o problema das relações do culto católico com a cultura portuguesa, a qual retomava já a sua perdida autonomia na revista anti-positivista a «Águia». Embora seja triste, forçoso é ler na história que o episcopado e principalmente o seu chefe, não se encontravam à altura das suas responsabilidades apostólicas, deixando passar para o lado dos políticos monárquicos a defesa dos sagrados direitos da Igreja. A preparação filosófica do nosso clero não lhe permitia enfrentar com novas ideias as novas circunstâncias, pois a escolástica decadente dos nossos seminários fora completamente destroçada pelo positivismo dominante nos ambientes literários, artísticos e políticos.

Contaminada por esta corrente cultural, a doutrinação filosófica do nosso clero mostrava-se incompatível com as tendências étnicas do povo português. Contra o facto positivo só o milagre religioso: as aparições de Fátima em 1917 vieram chamar a atenção dos fiéis para o sobrenatural que o positivismo negava. Infelizmente, porém, nem todos os sacerdotes perceberam o alcance do novo modo de relacionar o culto católico com a cultura portuguesa; continuaram a ler e a pensar em francês e, assim, a cultura da classe eclesiástica que deveria depender das exigências culturais que os fiéis experimentam, não lhes corresponde de modo algum. Fugindo a elas, àquelas exigências que radicam nas diferenças étnicas características de uma nacionalidade, alia-se o clero com o positivismo, cultivando assim a ignorância. 

Desculpam-se os nossos sacerdotes alegando que é necessário adequar a sua expressão ao nível mental das multidões; tal argumento não só não é válido como até mesmo inadmissível para quem leia as epístolas de S. Pedro e s. Paulo.

4. A cultura católica e as traduções

O problema da relação do culto com a cultura é análogo ao problema das relações da Igreja com os diferentes e vários povos que praticam o catolicismo, isto é, da Igreja com as filosofias de cada povo. As pátrias são profundas realidades que à Igreja Católica compete reconhecer; é possível que elas venham a desaparecer quando submetidas a governos mais fortes nos poderes que lhes forem concedidos legítimamente, ou por desaparição total das fronteiras, na confusão de todas as raças e todos os povos.

Que nessa altura desapareça a pátria portuguesa é o mais que poderemos admitir; mas que Portugal se antecipe, antes que os outros povos dêem o exemplo, eis o que, de modo algum, não pode ser admissível. Neste ponto, é curioso notar que os escritores de tendência internacionalista, contrários ao princípio das nacionalidades, não articulam os seus escritos com os dos povos que nos estão mais próximos , como os espanhóis e os brasileiros. Citam, sim, os franceses e os alemães, os ingleses e os americanos, levados por um patriotismo inconsciente que os inibe de misturar Portugal com a Espanha, ou Portugal com o Brasil, muito embora procedam conscientemente como agentes de culturas estrangeiras, que preferem ou servem.

Não é sem graves consequências que a cultura católica se fez e faz em Portugal através de traduções de livros escritos noutra língua, principalmente na língua francesa. Aos portugueses descrentes e mais lidos aparece-lhes, por isso, o culto católico como que de origem estranha ou estrangeira, servido por agentes muito bem disciplinados, e se o acusam e recusam é porque pensam, e com alguma razão, que a Portugal não interessa o que a toda a hora, indiscriminadamente, se importa de França.

A nossa apologética, a apologética do catolicismo em Portugal teria muito a ganhar se se firmasse, à semelhança do que em outros países acontece, numa filosofia nacional, isto é, na filosofia portuguesa. Só assim, deste modo conveniente e por certo convincente, se processaria a articulação do culto católico com a cultura portuguesa.

Tem-se afirmado a superioridade da filosofia portuguesa sobre as filosofias europeias, embora a afirmação não seja seguida de prova. Pensamos nós que tal superioridade dimana da atitude conciliatória e compreensiva que os pensadores portugueses sempre manifestaram quanto à doutrina católica; a heterodoxia tem sido, entre nós, uma tangente e não uma secante.

Contudo, entre os sacerdotes com quem temos conversado, notamos sempre uma indiferença para com a noção de pátria e grande ignorância sobre a história da cultura portuguesa. Dir-se-ia que apenas por cortesia, civilidade e boa educação é que os sacerdotes consentem falar em assuntos relacionados com a nossa pátria, cujo destino, no fundo, dir-se-ía pouco lhes interessar.

5. A apologética e o pensamento português

Assim, na mais representativa obra de apologética que, até agora, aqui se publicou, pode ler-se, no capítulo dedicado a Portugal, capítulo que, ao longo de cinco sucessivas edições, a última das quais data de 1953, não sofreu alteração alguma, o seguinte, na página 353: « Acaso se haverá notado que até agora tenho falado excessivamente de França e pouco de Portugal.»

«Poderia justificar-me dizendo que, à semelhança do que no século XVI dizia Pedro Ramus da Universidade de Paris, assim a França é a mãe espiritual de toda o orbe, pelo menos do orbe latino». E, mais adiante – a páginas 336 – com se ainda não tivesse encontrado a expressão adequada ao seu pensamento, continua o então ainda Padre dr. Manuel Gonçalves Cerejeira: «Pelo que diz especialmente respeito a Portugal, já desde há muito que emigrou espiritualmente para a França, não estando eu muito longe de supôr que na nossa terra o melhor meio de dizer novidades é falar... em português. Eça de Queirós, o Português que teve até hoje o espírito mais gaulês, escreveu um dia que 'Portugal era um país traduzido do francês em calão'. Sem ferir a nota do paradoxo, poder-se-ía dizer que quem deseja saber o que se passou em Portugal, interrogue a … França.»

Nos dois únicos números da revista «Acto», publicados em Outubro de 1951 e em Março de 1952, escreveu Orlando Vitorino um longo, lúcido e proveitoso ensaio intitulado «O iluminismo contemporâneo em Portugal», em que denuncia as razões e sentimentos que ditaram a Sílvio Lima a sua critica ao livro «A Igreja e o Pensamento Contemporâneo» - que melhor seria designado por «A Igreja e o Pensamento Francês», tendo em vista a ligação de maior autenticidade. Se o Cristianismo se pensa como um fieri, em analogia com o fiat lux do Génesis, ao católico atento surge, iluminando, a relação dos sacramentos com a filologia. Insistimos em que não há palavras, não há frases insignificantes e, assim, quando, por exemplo se diz, de modo elíptico, que o sol se põe, o leitor inteligente logo completa a frase com o complemento circunstancial de lugar que a torna inteligível e comunicativa de um simbolismo admirável.

Definir-se religião como facto religioso, catolicismo como facto católico, equivale a restabelecer a oposição entre o Estado e a Igreja, proporcionando a dialéctica interminável entre a Religião e a Fé e impossibilitando a sua conciliação pelo intuir de um terceiro termo que as implica.

6. A política e a religião

Todo o homem é simultâneamente político, religioso e artista pelo que, nas suas actividades e actos implicitamente se expressam estas três conaturais tendências ou vocações humanas. Se se impossibilita a conciliação entre o que é do domínio da política e aquilo que pertence ao domínio religioso, subordina-se este àquele ou, ao invés, exprime-se o que é de ordem religiosa em termos que são de ordem política, como já hoje é observável para qualquer linguista despido de prejuízos ou preconceitos que tanto afectam e obscurecem o juízo ou julgamento dos homens que se não consideram, isto é, dos homens que não acreditam na influência sideral ou celeste.

Da transferência da linguagem religiosa para a terminologia política é exemplo assaz evidente o artigo que passamos a transcrever e que foi publicado na revista católica «A Família» - Ed.Paulistas – Ano IV – nº 1 de Janeiro de 1958, a página 12, sob o título «somos um exército»: «A Igreja é um exército poderoso. Nele, os Religiosos constituem a parte escolhida, as tropas de choque e de assalto. Em cada exército há uma escola de Jerarquias, que vai do soldado raso ao general do Estado-Maior. Os Religiosos, no exército da Igreja, são como oficiais do exército, porque têm a tarefa de guiar os outros.»

«Todavia, poderemos considerá-los como um batalhão de tropas escolhidas, um corpo de guarda, no exército de Deus que é a Igreja. Se fosse possível vê-los alinhados como numa parada, ficaríamos estupefactos diante da variedade dum tal exército e da força que encerra. A primeira impressão seria exactamente a de o reconhecer como o mais moderno dos exércitos porque corresponde admirávelmente a todas as necessidades da sua natureza.»

«Nos exércitos modernos encontramos, além dos homens, soldados por natureza, também as mulheres. Há perfis de raparigas que empunham com altivez armas modernas. Também no Exército dos Religiosos notamos que o elemento feminino é mais numeroso que o masculino.»

Continua assim, nesta linguagem política, o artigo do Religioso, e, na página seguinte, confirma: «um exército poderoso, eficiente, pronto para dar todas as batalhas. Todavia, é um exército escondido, que não dá sinais de alarme. Age silenciosamente, como o fermento no meio da massa.»

A coacção política inverte o homem agente em ser paciente, mas como a agência é própria do ser masculino, resulta que este transfere a acção para o domínio religioso. Tanta evidência tem esta afirmação que será escusado apontar os grupos religiosos hoje formados que, na própria designação que escolheram, patenteiam a sua intenção de agir e coagir. Lamentamos, porém que, dentre as imagens escolhidas para exprimir o sentimento religioso, se prefiram aquelas que conduzem ao combate e às lutas, com as consequentes destruição e ruínas, quando o simbolismo do edifício, da edificação que podemos ler em S. Paulo e que, seja embora aparentemente paradoxal, foi escolhido e recomendado pela ordem guerreira dos Templários, nos indica o Templo ou a Igreja, lugar propício à oração e à meditação dos homens que verdadeiramente aspiram à concórdia e à paz sobre a Terra.

Francisco Sottomayor, filósofo português.