segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O Objetivo Religioso da Educação


Publicado originalmente pela The American Chesterton SocietyG.K. Chesterton
Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo
Publicação autorizada pelo blog do Angueth
É somente por um definitivo e deliberado estreitamente mental que conseguimos manter a religião fora do sistema educacional. Não nego que isso possa ser, em certos casos, o menor de muitos males; que possa ser um tipo de lealdade para com um compromisso político; que seja certamente melhor que uma injustiça política. Mas a educação secular[1] é uma limitação, mesmo que seja apenas uma auto-limitação. A coisa natural é dizer o que você pensa sobre a natureza; e especialmente, por assim dizer, sobre a natureza da natureza. A coisa primeira e mais óbvia em que uma pessoa está interessada é em que tipo de mundo está vivendo; e porque está nele vivendo. Se você não sabe, não poderá, claro, dizê-lo; mas o simples fato de não ser capaz de responder à questão mais provável a ser formulada pela outra pessoa pode ou não ser o que alguns chamam educação, mas não é uma forma brilhante de instrução. Se você tem convicções sobre essas coisas cósmicas e fundamentais, sejam negativas ou positivas, você é um instrutor que está recusando ensinar uma das coisas mais importantes. Seus motivos podem ser generosos, ou podem ser meramente tímidos; mas isso não é certamente, em si mesmo, educação.
Diz-se algumas vezes que os devotos de uma doutrina religiosa, que são tão freqüentemente descritos como burros, estão, nessas questões, usando viseiras. A palavra não é sabiamente escolhida pelos críticos; e, em certo sentido, é muito mais aplicável ao próprio crítico. O homem que apresenta respostas oficiais a perguntas fundamentais, mesmo que ele diga que o mundo foi criado a partir de abóboras, pode estar dogmatizando, perseguindo ou tiranicamente estabelecendo a lei sobre todas as coisas, mas ele não está usando viseiras. Isso implicaria limitar deliberadamente seu campo visual. Sua visão por ser, para nós, uma ilusão; mas se ela lhe é muito vívida, não podemos censurá-lo por descrevê-la; e, de qualquer forma, ele a está descrevendo totalmente. Se houver no mundo tal coisa como um burro usando deliberadamente viseiras, este é o educador iluminado que está sempre fazendo um receoso esforço para excluir de sua tarefa de transmitir conhecimentos, qualquer referência a coisas que os homens, desde o início do mundo, sempre tiveram o maior desejo de conhecer. Estas coisas não são, em absoluto, meros objetos periféricos de uma curiosidade especial. Sejam elas conhecidas ou não, elas não apenas merecem ser conhecidas, mas são o tipo de conhecimento mais simples e elementar. É uma coisa boa que as crianças percebam que há um mundo objetivo fora delas, tão sólido quanto o poste de luz na calçada. Mas mesmo quando fazemos o poste bastante objetivo, não é estranho perguntarmos qual é seu objetivo. Um naturalista, observando os objetos comuns da rua, pode notar muitos fatos e escrevê-los num caderno. Um ciclista pode trombar num poste de luz; um vagabundo pode encostar-se ao poste; um bêbado pode abraçar o poste ou mesmo, num momento mais ousado, tentar subir no poste. Mas não é um tipo estranho ou especializado de conhecimento notar que o poste de luz tem uma lâmpada.
Pois educação secular realmente significa que todos deverão olhar para a calçada para evitar que, por um acaso fatal, alguém olhe para a lâmpada acima. A lâmpada da fé que realmente iluminou a rua para grande parte da humanidade em quase todas as eras da história, não foi apenas um fogo itinerante visto por visionários a flutuar pelo ar; foi também, para muitos, a explicação do poste. Se uma nuvem baixa como a fog de Londres cobrir, de fato, aquela chama,[2] então é um fato objetivo que o objeto permanecerá principalmente um objeto a ser trombado. Não culpo quem só consegue considerar o mundo a partir daquela luz altamente objetiva. Mesmo que o poste de luz pareça um poste sem lâmpada e, portanto, um poste sem propósito, pode ser possível ter diferentes pontos de vista a seu respeito. O estóico, como o vagabundo, pode encostar-se nele; o otimista, como o bêbado, pode abraçá-lo; o progressista pode tentar subir nele etc. Assim acontece com quem tromba com um mundo sem cabeça como em um poste sem lâmpada; para quem o mundo é um grande e objetivo obstáculo. Apenas digo que há uma diferença, que não é pequena ou secundária, entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem para que serve o poste.
O mais profundo dos desejos por conhecimento é o desejo de conhecer o propósito do mundo e de nós mesmos. Aqueles que acreditam poder responder a essa questão devem poder respondê-la como a primeira questão e não a última. Um homem que não possa respondê-la tem o direito de recusar respondê-la; apesar de que talvez ele tenda a confortar-se com o assaz dogmático dogma de que ninguém mais possa respondê-la se ele não pode. Mas nenhum homem tem o direito de responder à questão, ou mesmo prepará-la para ser respondida, como se ela fosse um tipo peculiar e pedante de questão adicional, que somente um tipo peculiar e pedante de estudante pudesse responder. A educação secular é mais razoável uma educação que incluísse a religião como uma atividade extra; como aprender a fazer grega ou falar português. E esse princípio é importante em relação à controvérsia sobre a educação religiosa, pois ele envolve toda a questão que foi tão proeminente na controvérsia, a questão do que é chamada de “atmosfera”. O que isso significa é que qualquer um que tenha o direito de responder à questão tem o direito de respondê-la como um tipo de questão que ela realmente é; uma questão que afeta a natureza de todo o mundo e o propósito de cada porção da vida humana. Se um homem ensina religião, é absurdo pedi-lo para ensiná-la como se fosse algo diferente, que não se aplicasse a todas as atividades do homem. A expressão “uma hora de religião” é algo muito próximo a uma contradição em termos. E é divertido notar que o mesmo cético casual que está sempre zombando do ortodoxo pelo seu comportamento e limitações, que está sempre falando de sua religião de domingo e sua separação das coisas sagradas e profanas, é geralmente o mesmo homem que mais prontamente faz pilhéria sobre a idéia de uma atmosfera religiosa nas escolas. Isto é, ele é exatamente quem mais se opõe às coisas sagradas e profanas serem unidas e a uma religião que funciona tanto nos dias de semana quanto aos domingos. A verdade é que a idéia de atmosfera é simplesmente uma peça da elementar psicologia infantil. Em qualquer outra questão, essas pessoas seriam as primeiras a nos dizer que a educação deve observar todas as influências que formam a mente, não importa quão aparentemente leve ou acidental. Eles se horrorizam se a criança tiver de olhar para o papel de parede errado; eles assumem seriamente a responsabilidade de garantir, no papel de parede, a correta imagem do wombat;[3] mas eles nos dizem não se importar que a criança tenha a correta imagem do mundo.
Não estou afirmando, claro, que não haja nenhum valor no entusiasmo social secular; ou mesmo que, na linguagem que alguns usam sinceramente e até utilmente, que ele não mereça ser chamado de religião. O que duvido é que ele mereça, neste sentido, ser chamado de razão. Ele não satisfaz a fome intelectual primária de um significado da vida, do qual certas pessoas falam bem, mesmo quando duvidam que isso signifique alguma coisa. A verdade é que há implícito em quase todo idealismo um número de idéias que os idealistas raramente seguem. Há a noção de uma escolha que é misteriosamente oferecida e que é seguida de igualmente misteriosas conseqüências; de um valor místico atribuído a uma parte de nossa natureza sem qualquer autoridade para avaliá-lo; de um tipo de elevado namoro com ninguém em particular; em resumo, todos os ricos matizes de uma fog londrina circundando um poste de luz sem a lâmpada. Estou longe de faltar ao respeito por este idealismo tateante; apenas digo que, baseado em sua própria confissão, ele é muito incompleto em comparação com o idealismo de alguém que professe uma completa filosofia, pois este tem um credo. E não tenho a intenção de ofender quando digo que qualquer um que tenha este tipo de educação é uma pessoa meio-educada.
Mas há outro aspecto do caso, que ilustra a verdade real no puritanismo assaz rústico das pessoas que criaram uma confusão em Dayton.[4] Para alguns de nós, parece estranho que tal protestantismo muito antiquado deva supostamente representar a religião. Parece estranho que tal darwinismo muito antiquado deva representar a ciência. Mas, de fato, o protesto e o processo naquela ocasião representaram algo. Mostraram o forte instinto popular de que, não sem justificativa, a ciência estava sendo manipulada de forma a significar muito mais do que ela realmente diz. Uma educação evolucionária é algo muito diferente de uma educação sobre evolução. Tal como uma escola religiosa aberta e admitidamente proporciona uma atmosfera religiosa, uma aula científica às vezes proporciona, consciente ou inconscientemente, uma atmosfera materialista. Um professor secularista teria tanta dificuldade quanto um padre de não dar sua própria resposta a questões que são as que mais merecem ser respondidas. Ele também fica um pouco incomodado de não colocar as coisas primeiras em primeiro lugar. Tende a cada vez mais transformar sua ciência em filosofia. Talvez seja discutível e provocativo chamar essa filosofia materialista. É mais educado e igualmente correto chamá-la monista. Mas a questão é que essa filosófica tem algo em si que é completamente estranha, não somente a todas as religiões que se referem à vontade de Deus, mas também a todas as moralidades que revolvem em torno da vontade do homem. Sua imagem do universo, certa ou errada, não é aquela de um poste instalado com o objetivo de ter uma lâmpada em seu topo; é mais a de um poste que cresce como uma árvore; um poste de luz que produz afinal sua própria lâmpada. Assim, considerando essa visão de um vago crescimento simplesmente como uma atmosfera e uma impressão nas mentes dos jovens (independente de sua veracidade ou falsidade), não há dúvidas de que ela tende à noção de que as coisas têm muito de algo em comum, são igualmente frutos inevitáveis da mesma árvore; e certamente não tende na direção da idéia de uma escolha moral e de um conflito; de um contraste entre o preto e o branco, ou a batalha entre a luz e a escuridão.
Não estou escrevendo polemicamente, nem querendo pressionar alguém afirmando isso como uma necessidade individual. Estou escrevendo educacionalmente, e considerando a impressão psicológica provável de certas atmosferas e matizes sutis. Digo que uma grande evolução na educação não faria a educação muito insistente em idéias de livre arbítrio e de moralidade guerreira; de escolhas e desafios dramáticos. Por que um fruto desafiaria outro fruto da mesma árvore; e como poderia haver uma escolha preto-e-branco em lentas gradações de verde? Assim, mesmo que ignoremos a questão primeira da religião, no sentido do propósito da criação, há o mesmo tipo de problema a respeito da religião mesmo que usemo-la no sentido do propósito de fazer o bem. Se um homem acredita que há um abismo entre o vício e a virtude tal com aquele entre a vida e a morte, ele quererá dizê-lo. E se outros homens somente dizem que tudo é produto de um crescimento evolucionário, ele não admitirá que eles disseram o que ele desejava dizer. Não é somente uma questão de que a educação secular parece indiferente à religião, mas que a educação científica parece indiferente à ética. Estou falando de efeitos educacionais, como os educadores fazem; e recusando todo tipo de recriminação sentimental sobre os objetivos puros e nobres dos homens de ciência. Muitos que desprezariam algo tão clássico como o ensino da retórica, estão sempre prontos a usar uma grande quantidade de retórica em louvor do ensino da ciência. Não estou atacando o ensino da ciência, muito menos os professores de ciência; estou dizendo que o ensino da evolução, se se tornar uma atmosfera, não pode ser uma atmosfera favorável à chama moral ou a um espírito guerreiro. Para resumir: o ensino da evolução é dificilmente um treinamento para revolução.
Ele dificilmente proporcionará uma força especial ao sentimento de que algumas coisas são intrinsecamente intoleráveis e outras imperativamente justas. Quando um reformador puder apenas dizer para um motorista-escravo, “Você está evoluindo muito vagarosamente; você deve ter emergido do estado-escravo”, o motorista-escravo pode apenas responder, “O senhor está evoluindo muito rapidamente; o senhor deve esperar até o século XXI.” Tal discussão dificilmente acenderá a chama do fanatismo de Harpers Ferry.[5] Parece-me, portanto, que os pobres puritanos de Tennessee não estão totalmente errados, na questão de psicologia educacional, se eles dizem que a educação evolucionária, mesmo que não seja um ataque à doutrina cristã, pode se tornar uma atmosfera muito estranha à moral cristã; e a qualquer tipo combativo e viril de moral. Depois da doutrina de que a existência é o resultado de um design, a próxima coisa mais interessante é que ela é o resultado de uma escolha; e mesmo que os homens fossem ensinados a ser ateus, duvido que o mero evolucionismo ter-lhes-ia ensinado a serem ateus impetuosos e guerreiros. E ver os ateus perderem sua única grande virtude da ferocidade seria, de fato, uma grande perda para a religião.
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[1] O que se chama no Brasil de educação laica. (N. do T.)
[2] Chesterton aqui se refere à lâmpada à gás, não à lâmpada elétrica. (N. do T.)
[3] Tipo de animal australiano. (N. do T.)
[4] Este artigo foi escrito em 1925, mesmo ano do famoso julgamento em Dayton, cidadezinha no Tennessee, EUA, de um professor que ensinava a teoria da evolução numa escola pública. (N. do T.)
[5] Harpers Ferry é uma cidade da Virgínia Ocidental, EUA, que foi local de uma rebelião abolicionista em 1859. (N. do T.)

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