segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

EDUCAÇÃO PÚBLICA: PATAVINAS DE MELHORAS!


Anísio Teixeira, nosso educador, aí pelos idos de 1930, pregando a arte e ousadia para a educação pública.  Índices internacionais mostram que estamos de marcha-a-ré.
Anísio Teixeira, aí pelos idos de 1930, pregando a arte e ousadia para a educação pública. Tanto tempo depois, os índices internacionais demonstram que estamos de marcha-a-ré.
1. Anísio Teixeira, nosso mais importante educador, prenunciava, na década de 1930, o que, ainda hoje, pouco se pratica:“Fixar, compreender e exprimir verbalmente um conhecimento não é tê-lo aprendido. Aprender significa ganhar um modo de agir. Não aprendemos uma idéia quando apenas sabemos formulá-la., mas quando a fazemos de tal modo nossa que passar a fazer parte do próprio organismo. Logo, não se aprende senão aquilo que se pratica.”
2. Estariam essas idéias ultrapassadas? Não. Ao contrário. Quando se percorre as experiências de outros países, percebemos que se permite ao professor gerenciar e “reinventar” boa parte do seu trabalho, ampliando o potencial do talento de cada aluno, sem as amarras tradicionais.
3. O professor Jorma Routti, da diretoria de Pesquisa Científica da Comissão Européia, é finlandês. Perguntado sobre por que o Brasil havia ficado em último lugar num ranking de testes de matemática aplicados internacionalmente, respondeu: “O Brasil investe pouco em educação. E este é o melhor investimento possível.” O que sabemos é que a Finlândia, em poucas décadas, deu um salto de um país de economia rural para potência tecnológica, com uma indiscutível qualidade de vida. O segredo? A mais alta remuneração média da Finlândia, entre as profissões, é a do professor.
4. Investir no professor. Centrar nossa atenção na qualidade do professor. Ele sente no pulso e no do dia-a-dia como poderá ajudar no desenvolvimento de cada aluno. Afinal, um professor é um gerente de um grupo que envolve 30, muita vezes 50 seres em formação, sedentos de procurar mais vida na própria vida.
5. Da Finlândia ao Vale do Jequitinhonha, em Minas: Tião Rocha, vencedor do Prêmio Empreendedor Social de 2007, desenvolve, formas diferentes para a criança aprender brincando. Diz Tião: “Eu não quero acabar com a escola, mas ela precisa ter a ousadia de experimentar. É uma lástima dar às crianças só aquilo que a escola formal oferece. Eu busco um sonho: que as escolas sejam tão boas que professores e alunos queiram freqüentá-las aos sábados, domingos e feriados.”
6. E o que ele oferece?  Algumas idéias. Os meninos quando iam para a escola vinham de tão longe que demoravam até duas horas no ônibus. O que ele fez como secretário de educação de Araçuaí? Colocou educadores no ônibus.  Livros, como ele incentivou a leitura? Colocou-os embaixo de árvores e, em volta, montinhos com placas: música, artes, teatro. Tudo o que o menino lesse tinha de ir numa direção: a de fazer música, teatrinho, como num jogo para ler e transformar, desenvolvendo o talento de cada um.
7. Tião deve ter seguido um ensinamento de meu professor Afonso Arinos que mencionava: “Se você quer ser um bom economista, leia Proust”. Ou seja, pular de um assunto a outro, ousar pensar, ousar fazer.  É o que fazem as universidades no exterior: a de Cornell, nos Estados Unidos, possui um campus avançado em Florença onde alunos de economia aprendem arte do Renascimento. Quanto mais o pensamento migra de uma verticalidade de idéias para uma abrangência mais horizontal, mais ele se torna flexível para a aceitação dos desafios da vida.
8. Em algumas universidades inglesas, mesmo quem faz filosofia é obrigado a cursar alguma arte manual, como serralheira ou marcenaria. Bom reaprender sentidos que não apenas o do olhar, tão presente em nossa sociedade do espetáculo. As informações estão no computador, mas não a nossa capacidade de pensar. Aprender é utilizar a audição, o tato, o olfato, todos os sentidos. Plenamente. E, principalmente, a força da tradição oral. Transmitir, de perto, com palavras, percepções de vida. Trocar estas percepções com os alunos.
9.  A saída é ensinar a pensar, para fazer a criança crescer e se desenvolver por seus próprios meios. Por isso, a cultura deve estar intimamente associada ao processo educacional. As atuais provas do MEC provam que os alunos não fixam o conhecimento e, em sua ampla maioria, não aprendem a pensar.
10. O norte-americano Neil Postman no seu livro O Fim da Educação sentenciou: “Sem uma narrativa (que é o ato de pensar) a vida não tem sentido. Sem um sentido, a aprendizagem não tem finalidade. Sem finalidade, as escolas são casas de detenção, não de estudo.”

P.S.  O texto acima foi escrito há seis anos para um empresário amigo. Em função das notícias da semana, resolvi publicá-lo. A primeira se refere ao teste mencionado no item 3: o Pisa, uma prova aplicada pela OCDE (organização das nações mais desenvolvidas), onde involuímos da 53ª para a 57ª posição. A outra notícia é a de temos quatro universidades entre as 100 melhores apenas entre os países emergentes. A educação continua sem ousar; não avança. Burocratas imaginam resolver seu problema com tecnologia: pura bobagem. “A escola deve se transformar em um centro onde se vive e não em um centro onde se prepara para viver.” A frase é ainda de Anísio, prestes a completar um século. E patavinas de melhoras.

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/leonel-kaz/

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