terça-feira, 18 de novembro de 2014

A CONSTRUÇÃO NECESSÁRIA

Uma obviedade é como todas as outras são. Deste modo é desnecessário comentar que o conceito de civilização está fatalmente associado à ideia de uma construção simbólica em suas bases. É evidente que em um país onde o processo civilizacional não se deu completamente é mais do que necessário, torna-se um dever comentar o óbvio.

Essa construção simbólica faz parte do que o Mário Ferreira dos Santos, certamente o maior intelectual que esse país já teve, chamava de “Sabedoria dos Princípios”. Através dela emanam todas as ligações das construções socioculturais de uma sociedade, sendo, portanto o elo fundamental entre o start e as ações das relações dentro da mesma, seja de modo consciente ou não. A arte por sua vez, desde as civilizações mais remotas acabou sendo o fator que por suas próprias características acaba por sintetizar as ações humanas em um discurso poético, e assim sendo, usa da simbólica para estabelecer suas necessidades de expressão e conexão de conceitos, atuando entre o visto e o que é possível expressar.

Dentro desta perspectiva a importância do desenvolvimento artístico vivenciado na pólis passa a ser a pedra fundamental e de possível análise desta mesma sociedade através do estudo de suas formas de expressão, sua qualidade técnica e sobretudo, do conteúdo filosófico e simbólico da mesma. Usando das palavras do Mário, bem mais claras do que as minhas fica assim expresso:

"Com símbolos, expressamos o que não poderíamos fazer de outro modo, porque, com ele, transmitimos o intransmissível, como procede nosso inconsciente, que, por não sabermos, nem querermos ouvi-lo, segreda-nos seus ímpetos, seus desejos e seus temores, através de símbolos. E usa-nos ainda para burlar a nossa censura, as inibições que impomos, e o que temeríamos sequer desejar". Mário Ferreira dos Santos, Tratado de Simbólica.

É evidente que dissociar a simbólica da arte é uma impossibilidade conceitual, tendo em vista que toda forma de expressão artística está, até mesmo por condição de existência, expressa por meio de símbolos.

É importante dizer que a arte brasileira, sobretudo pelo contexto histórico que implica diretamente em seu desenvolvimento teve poucas condições de estabelecimento, seja por parte do governo ou pela sociedade, esta que já advinda de um processo de abandono intelectual e moral desde suas origens, não tornou o desprezo pela arte como algo muito difícil de fazê-lo, e até de orgulhar-se disso. Nessa mesma esteira tendo em vista a fragilidade que esta arte se desenvolve, além de todo o processo educacional, que pode e deve ser incluso, ao longo do século XX todos os “ismos” surgidos na Europa e que vieram a contestar tudo que estivesse abaixo do sol, se aportaram aqui, uma sociedade sem a menor capacidade de contestação que, por sinal, se deram não só na arte moderna recém-chegada, mas também em toda a base intelectual que seria o fermento para as novas gerações.

Essa cisão entre sociedade e educação se dá no Brasil de modo bastante angustiante quando temos a consciência que esse trâmite, até mesmo pelo notável número de escritores, artistas e intelectuais, que contrariando toda a lógica, vieram a desenvolver um trabalho notável e abundante em todos os sentidos, e que foram a princípio absorvidos e que assim nos deram a primórdios de uma esperança de um lugar ao sol como um país minimamente sério, foram aos poucos sendo desprezados, geração após geração, e planos educacionais cada vez mais bizarros, insuficientes, pomposos e amadores.

As bases fundamentais de formação educacional de uma sociedade, que em tempos idos tínhamos consciência, foram perdidas e esse processo, bem como outros um tanto mais graves que se trata da total falta de contato com a realidade, o desprezo pela condição humana ou uma forma difusa de consciência, já foram alertados por uma infinidade de autores, seja na literatura através do símbolo que deve ser justamente entendido e traduzido em significados e juízos pertinentes ao fenômeno descritos, que por sinal não é um processo muito simples uma vez que tem todos os símbolos tem um conceito correspondente já desenvolvido, seja na filosofia, por outra infinidade de autores que estão completamente excluídos do processo educacional do Brasil. Autores como Dostoiévski, Camus, Viktor Frankl, Ortega y Gasset, Joseph Conrad, Stendhal, Robert Musil, René Guénon, Huxley, Dante, Shakespeare, Homero, Sófocles, Cícero, Kafka, Thomas Mann, Severino Boécio, Ésquilo, Goethe, Molière, Cervantes, George Orwell, Alessandro Manzoni, Santo Agostinho, Hesíodo, Racine, Balzac, Beckett, Camões, Hermann Broch, entre uma infinidade de outros, deveriam ser elementos prioritários na formação educacional, uma vez que é através da experiência contida em tais obras que pode haver uma expansão da realidade que vai além dos acontecimentos que nos cercam imediatamente. São as experiências imagináveis que podem nos dar um “mapa” não de nenhuma mina, mas de parte das ações humanas nos tornando assim mais humanos também.

Esse processo que é uma espécie de hiato entre o ser e a realidade que o cerca, ou melhor, sobre a percepção desta, foi expresso de modo contundente tomando-se pelo prisma educacional na palestra transcrita em um belíssimo texto chamado “As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem” da professora e escritora Dorothy Sayers. É evidente que a construção educacional em tais perspectivas se dá através da captação dos símbolos e seus significados não se dão tão só através da arte literária, teatral, poética ou da filosofia. Ao ampliarmos nossa perspectiva incluindo aí todo o legado das artes visuais e da arquitetura, evidenciando-se a amplitude de fenômenos captados pela humanidade ao longo da história da arte. Assim, quando nos dispomos a observar uma obra de arte de um Raphael Sanzio, por exemplo, procuramos captar não só a expressão estética, a análise técnica e a utilização dos materiais, pertinentes a qualquer expressão técnica da arte em questão, mas, sobretudo ao sentido simbólico do texto pictórico que ele nos relata.

O desenvolvimento da capacidade de tal leitura, evidentemente se dá ao longo de uma formação intelectual um tanto mais rigorosa, uma vez que isso não sendo feito, o sentido de circulação do discurso simbólico da arte pode ser perdido, se não completamente, mas pelo menos engessado por determinado período. É nessa mesma esteira que a escultura e a arquitetura têm uma importância igual à literatura no processo de construção simbólica e cultural de uma sociedade.

A consciência da inclusão de tais elementos na perspectiva educacional ainda não se deu de forma prática no país, uma vez que seus principais nomes estão dissociados de seus currículos escolares e universitários. Fatalmente essa falha na formação reflete diretamente no fracasso educacional, moral e não sem menor constrangimento, nas ciências humanas. A retomada da consciência desse processo, que de imediato sabemos que não é fácil, rápido ou agradável, é algo que está totalmente fora da esfera das políticas educacionais na atualidade, e, onde em vários países ela já foi prioridade hoje está em decadência.

A pergunta que nos fazemos é quando a sociedade brasileira vai passar exigir de si própria antes de tudo, o entendimento por tais demandas e após isso, quem sabe um dia muito distante, essa mesma exigência se deem em uma esfera política? É óbvio, que para que isso ocorra devemos ser antes de tudo os porta vozes a exemplificar os outros com nossa própria educação.


Antonio Sávio Nunes de Queiroz.





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