quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Lições de Abismo (Gustavo Corção), por Antônio Olinto.


 lições

Dos romances publicados no Brasil no século passado, poucos atingiram a pungência de “Lições de abismo”, de Gustavo Corção, livro filiado à linha de Cornélio Pena, Lúcio Cardoso e Adonias Filho, cultores de uma ficção que se apega aos acontecimentos internos de uma vida, à essência mesma do que acontece a seres humanos, atendo-se ao significado maior da realidade de um momento, ao redor da qual possam estar gravitando pequenos pedaços de uma realidade maior.

Muitas vezes reclamei e fiz apelos no sentido de romances como “Lições de abismo”, de Gustavo Corção, e “A menina morta”, de Cornélio Pena, serem reeditados de modo que a publicação, agora, do primeiro desses romances, me dá uma sensação de vitória na luta em que todos os que lidamos em favor da literatura do País, quando conseguimos retirar do esquecimento uma obra que fala por nós e por nosso tempo.

“Lições de abismo” é um livro diferente na ficção brasileira. Quando muito estaria na linha da fracassada tentativa de romance de Jackson de Figueiredo em “Aevum”. Mas onde este fracassou, Gustavo Corção venceu.

A história é a do homem que-sabe-que-vai-morrer e que tenta, antes da morte, desatar a trama da vida, encontrar-lhe um sentido e descobrir uma justificativa para o próprio desaparecimento. Assim, sendo o seu um romance de amor e de morte, nele o amor chega realmente a fronteiras da morte. A mulher é o supremo bem. Diante dela, o resto desaparece.

Logo no começo de “Lições de abismo”, descobre o narrador uma verdade que ele sintetiza nestas palavras: “O amor e a morte não precisam de muito espaço”. Toda casa é demasiadamente grande para o amor. Pode ter quatro quartos, salas enormes, nada disto é necessário. O que vale é aquele pequeno espaço em que o amor acontece.

Curioso é o destino de livros escritos na mesma época, de autores diferentes e com assuntos parecidos. Há correntes de pensamento e de emoção que atravessam vários homens, fazendo-os reagirem de forma idêntica diante de problemas do tempo que são, na realidade, os mesmos problemas de todos os tempos. Num dezembro saiu na Inglaterra um romance de Graham Greene, “The end of the affair”.

No mesmo dezembro saiu no Brasil o romance de Gustavo Corção, “Lições de abismo”. Os dois romances haviam sido escritos no começo dos anos 50. O escritor inglês colocava em seu livro um triângulo amoroso angustiado. Em ambos, o tema do amor se mistura ao da morte. A orientação essencial da vida era, nos dois, a mesma. Tanto Graham Greene como Gustavo Corção eram católicos. É também significativo que em nenhum dos dois livros haja uma prova evidente desse catolicismo.

No livro de Greene, a história é também de ódio a Deus. Deus era o rival, Deus era “o” outro. Reconvertendo-se, a mulher abandona o homem por causa de Deus. Em “Lições de abismo”, Deus não aparece. Ou melhor, mais do que no livro de Greene, Deus é ali a grande presença de uma ausência. O drama do “outro”, abandonado pela mulher que volta ao marido, numa espécie de traição à traição, faz, do amante esquecido, o que se poderia chamar de vítima fácil de Deus. O homem, solto, em estado receptivo, torna-se terreno propício para as sementes de uma fé religiosa.

O José Maria de “Lições de abismo” vive sob os dois signos do amor e da morte. Seu amor é frustrado, desesperado, orgulhoso e violento. E a morte, que se aproxima, dá um estranho realce a esse amor ou ao que ele poderia ter sido. Nas páginas de evocação da figura de Eunice, atinge Gustavo Corção culminâncias não muito comuns na literatura brasileira. Quando José Maria acompanha Eunice pelas ruas do Rio de Janeiro, as considerações, que faz, sobre a mulher em geral, são comparáveis às de Proust, ao falar de Odette.

Aquela figura feminina, que passa na calçada, arrastando olhares, desejos, convicções, filosofias, tem uma realidade que supera as palavras. Nessas páginas, o amor e a morte se mesclam numa só coisa, imponderavelmente ligada ao destino do homem que-sabe-que-vai-morrer.

Contrariando o que parecia ser a tendência indicada pelo romance, o homem não chega a Deus. O que se poderia esperar não acontece. Deus continua sendo mistério. Ou melhor, repetindo o que se disse de Greene, Deus é ali a grande presença de uma ausência. Gustavo Corção detém-se antes do momento decisivo, deixa o homem em contato com a morte, com toda a receptividade do que está além, mas sem o gesto final. A rendição do pensamento é prenunciada, adivinhada, mas não declarada.

“Lições de abismo” revela aspectos da alma das gentes de tal maneira que suas palavras podem causar espanto. O motivo dessa conquista, que conquista é, vem do fato de, antes de tentar a ficção, haver Gustavo Corção mostrado ser um dos melhores ensaístas do Brasil. Seus livros anteriores – “A descoberta do outro” e “Três alqueires e uma vaca” – haviam apresentado um estilo ensaístico novo no país. Em “Lições de abismo”, não abandonou Corção de todo o ensaio, tendo conseguido essa difícil junção de duas atividades: escrever um ensaio transformado em boa ficção – e escrever um romance com toda a técnica do ensaio embutida nos acontecimentos que narra.

No fundo, o que o escritor Gustavo Corção buscava era um sentido para a vida. Existe nele o mesmo pavor do Nada que nos atinge a todos, juntamente com o espanto. Assim, “Lições de abismo” pode ser compreendido como um hino à vida e ao mesmo tempo um estudo sobre a paixão que vem de dentro e nos torna gente.


Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro) 22/02/2005

Fonte: ABL via http://www.ocampones.com/

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